CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

18 de maio de 2018

O vermelho e o negro: Stendhal


"Ao chegar a Florença, meu coração batia com força... em uma curva da estrada, meu olho mergulhou na planície e percebi, de longe, como uma massa escura, Santa Maria Del Fiori e sua famosa cúpula, obra-prima de Brunelleschi. Eu me dizia: ‘É aqui que viveram Dante, Michelangelo, Leonardo da Vinci! Eis esta nobre cidade, a rainha da Idade Média! É nesses muros que começou a civilização”... as lembranças se comprimiam em meu coração, sentia-me sem condição de raciocinar e entregava-me à minha loucura como junto de uma mulher a quem se ama... Eu já me encontrava em uma espécie de êxtase pela idéia de estar em Florença e pela vizinhança dos grandes homens dos quais eu acabava de ver os túmulos [Michelangelo, Alfieri, Machiavel, Galileu]... Absorvido na contemplação da beleza sublime, que via de perto, eu a tocava, por assim dizer. Tinha chegado ao ponto da emoção onde se encontram as sensações celestes proporcionadas pelas belas-artes e os sentimentos passionais. Saindo de Santa Croce, meu coração batia forte, o que em Berlim chama-se "nervos"; a vida esgotara-se em mim, eu andava com medo de cair...” STENDHAL (Nápoles e Florença: Uma viagem de Milão a Reggio)























O pós Reunião

Incêndio no céu.
Põe-se o ardente sol de agosto,
e as cigarras cantam.
(Elenir)




"Não há direito natural, essa ideia é só uma velha tolice muito digna do promotor que me acusou outro dia, seu avô enriqueceu com o confisco de Luís XIV. Só há direito quando há uma lei proibindo fazer alguma coisa, sob pena de punição. Antes da lei, de natural só há a força do leão, ou a necessidade da criatura que tem fome, que tem frio, a necessidade, numa palavra... Não, as pessoas que se honram são apenas bandidos que tiveram a sorte de não ser pegos em flagrante delito. O acusador que a sociedade lança contra mim enriqueceu com uma infâmia... Cometi um crime e fui justamente condenado, mas, a não ser por isso, o juiz que me condenou é cem vezes mais nocivo à sociedade."

Vocês só vêem o momentâneo! Seus olhos não conseguem seguir o trabalho subterrâneo das escolhas filosóficas sob o manto das decisões pragmáticas.

"É preciso renunciar a toda prudência. Este século é feito para tudo confundir! Marchamos para o caos."

"Repito máximas para servirem de dique às minhas paixões."

"Meu Deus, dai-me a mediocridade."



"Talento? 
Serviço? 
Merecimento? 
Que nada! 
Pertença a um grupinho." 





Palavras soltas, encontros ao acaso, transformam-se em provas mais que evidentes aos olhos do homem de imaginação, se ele tiver alguma chama no coração.

  • "— Você é predestinado, meu caro Sorel — diziam-lhe; — você tem, muito naturalmente, esse ar frio de quem está a 1 000 léguas da sensação presente que nós tanto procuramos adquirir. / — Você não compreendeu esse século — dizia-lhe o Príncipe Korasoff: — faça sempre o contrário do que esperam de você. Aí está, realmente, a única religião de nossos tempos. Não seja doido nem afetado, pois, nesse caso, esperarão de você loucuras e afetação, e o preceito não será mais cumprido." [p.264-265]

A sua grande missão é julgar com calma os pequenos acontecimentos da vida cotidiana dos povos. A sua sabedoria deve prevenir as grandes cóleras movidas por pequenos motivos, ou por eventos que a voz da fama transfigura, levando-os longe demais.




Sua resposta foi perfeita, sobretudo longa como um sermão; dava a entender tudo, mas não dizia nada claramente.




"La vérité est dans la bouche des enfants" (Platão/Sartre)




"O amor, isto é, a mulher, revela os verdadeiros fins da existência: o belo, a felicidade, a vivacidade das sensações e do mundo" (Simone de Beauvoir)



“As mulheres só perdoam depois de terem castigado.” 

“Parecer o que se é, é um crime; parecer o que não se é, um sucesso.” 
DELPHINE GAY DE GIRARDIN








17 de maio de 2018

A Ilha sob o Mar: Isabel Allende

Zarité, a escrava,
dançando ao som dos tambores,
sentia-se livre.
(Elenir)




Tendo como pano de fundo o Haiti do século XVIII, A ilha sob o mar, da escritora chilena Isabel Allende, entra em discussão no encontro do Clube de Leitura Icaraí do dia 5 de abril, das 19h às 21h, na Livraria Icaraí (Rua Miguel de Frias, 9 –Icaraí – Niterói). A entrada é franca.
O romance narra a história de Zarité, uma escrava vendida aos nove anos para um dos maiores produtores de cana-de-açúcar das Antilhas e de quem mais tarde se torna amante. Mesmo sem sofrer maus-tratos, Zarité acompanha de perto o sofrimento de seu povo. Quando a revolução haitiana explode contra os colonizadores franceses, ela tem a oportunidade de fugir e recomeçar a vida em outro país.


Sobre a autora- Isabel Allende nasceu no Peru, mas considera o Chile a sua terra natal. É considerada uma das principais revelações da literatura latino-americana da década de 1980. Seu livro A casa dos espíritos (1982) foi adaptado para o cinema americano. A ilha sob o mar é o 16º romance publicado de Isabel Allende.

Erzuli me deu como céu
a ilha sob o mar
lá guardo meus mortos
lá meus mortos me aguardam
justos sonhos de ser gente
germinam e florescem
longe do açúcar vermelho.
Nossos pés sem calos se acariciam
numa eterna dança de pássaros
que voam no chão da terra
invertidos
livres
prontos para o amor.


Rita Magnago


* * *


E nos dias de hoje, mais de dois séculos após as histórias contadas no romance, e de cerca de 150 anos do assassinato de Lincoln ...

* * *

"Sobre esse livro A Ilha Sob o Mar... hummmmmm... Meu resumo é o seguinte: é um "Leque Secreto" afro-centroamericano... Só não tem pézinho quebrado pra caber no sapatinho mínimo, mas tem todo o resto, até a guerra que mata aos montes, as doenças que dizimam, os casamentos arranjados, o sofrimento feminino, a brutalidade masculina... Apenas sai o velho Oriente e entra o "Novo Mundo". Saem os olhos puxados e entram os negros. Sai a Flor da Neve e entra a Cana do Sol" (novaes /)


* * *

"Sentia que sua vida era uma navegação sem timão nem bússola, encontrava-se à deriva, esperando algo que não sabia nomear"


E se um dia se acabar

minha sacola de sonhos

vou ter que "costumizar"


meus pesadelos medonhos.


Ilnéa





* * *

"A Ilha Sob o Mar, dentre os de Isabel é o que eu gosto muito. Fiz a resenha no meu blog. Quem quiser dá uma olhada. Eu o li e confesso que já não acho tão legal, mas vale como ensejo para discussão." (Roberto)


* * *


Louisiana

* * *

"É uma leitura que nos envolve desde as primeiras páginas até as finais com um gosto enorme por saber mais e mais da história." (Sonia)



15 de maio de 2018

Ode a Um Rouxinol: John Keats

Leitura de referência - Shalimar, o equilibrista: Salman Rushdie
Debate: 11 de setembro de 2015 - 19:00 h
Livraria Icaraí - Icaraí - Niterói




Doi-me o coração, e um torpor letárgico

Fere meu sentido, como se tomasse cicuta,

Ou ingerisse até o fim algum ópio
Instantes atrás, e ao Letes me precipitasse.
Não que inveje teu alegre destino
Mas por ser feliz com tua alegria - 
Que tu, Dríade das leves asas,
Num lugar melodioso
De faias verdes, e sombras incontáveis,
Celebras a plena voz teu canto de verão.



II



Oh! Gole farto de vinho velho!

Fresco há muito no profundo coração da terra,

Com sabor da Flora e verdes prados,
Dança e canção Provençal, alegria queimada de sol!
Oh! taça plena do quente Sul
Cheia da vera e rubra Hipocrene
Com borbulhas qual contas piscando nas bordas,
Boca tinta de púrpura;
Se pudesse beber, e sumir deste mundo,
E contigo desvanecer na escura floresta.



III



Desvanecer, dissolver e deslembrar

O que tu entre as folhas jamais conheceste

O fastio, a febre, e o frêmito
Aqui, onde os homens sentam e se escutam gemer;
Onde a paralisia agita os últimos parcos cabelos brancos,
Onde os jovens empalidecem, e morrem qual espectros;
Onde apenas pensar causa a dor
E o desespero dos olhos plúmbeos,
Onde a Beleza não pode suster seus olhos brilhantes,
Nem um novo Amor definhar mais um dia.



IV



Longe, Longe! A ti voarei,

Não na carruagem de Baco e seus leopardos,

Mas nas invisíveis asas da Poesia
Embora o turvo cérebro retarde e confunda.
Já contigo! Suave é a noite,
E talvez a Rainha Lua esteja em seu trono
Cercada por suas Fadas estelares;
Mas aqui não há luz,
Senão aquela que do céu com as brisas sopra
Pelas glaucas trevas e sendas sinuosas de musgo.



V



Não vejo que flores estão a meus pés,

Nem qual suave incenso dos ramos exala,

Mas, na treva embalsamada, desvelo o aroma
Que cada mês regala
A relva, a coifa, as frutíferas árvores silvestres;
Branco pilriteiro e madresilva pastoral;
As violetas que cedo murcham veladas sob as folhas;
E a primeira filha dos meados de maio,
A rosa de almiscar, no vinho de orvalho imersa,
Murmúrea paragem de moscas das tardes de verão.



VI



No escuro escuto; por várias vezes

Que tenho sido seduzido pela suave morte,

Lhe dando ternos nomes em versos refletidos,
Para que pegasse no ar meu sutil alento;
Nunca como agora me parece tão boa a morte,
Findar a meia-noite sem nenhuma dor,
Enquanto tu em torno desvanesces a alma
Neste êxtase!
Ainda cantarias, e de nada valeriam meus ouvidos - 
A teu alto réquiem em terra transformado.



VII



Não nasceste para a morte, Ave imortal!

As gerações famintas não pisam em ti;

A voz que escuto esta noite foi ouvida
Pelo palhaço e o imperador nos tempos remotos.
Talvez a mesma melodia que encontrou lugar
No triste coração de Rute, quando, saudosa do lar,
Chorou entre o trigo estrangeiro;
A mesma que várias vezes encantou
As mágicas janelas, abertas sobre a espuma
Dos mares perigosos, nas encantadas terras perdidas.



VIII



Perdidas! Esta palavra é como um sino

Que, dobrando, me faz voltar a mim mesmo!

Adeus! A fantasia não pode tanto iludir
Como parece, ó elfo ludibriador.
Adeus! Adeus! Teu hino pungente se esvai
Além dos prados vizinhos, sobre o tranquilo riacho,
Subindo o monte; é agora profundamente enterrado
Nas clareiras do vale ao lado.
Foi esta uma visão ou sonhei desperto?
A música se foi: - Estarei dormindo ou acordado? 






ODE A UM ROUXINOL

 A “Ode a um rouxinol”, uma das prediletas no grupo das grandes odes, trata da felicidade que é o canto do rouxinol, das tristezas do mundo e da sedução da morte; todavia o canto da avezinha transcende a mortalidade e é tão belo que o poeta, no fim, indaga se não terá sonhado. Jorge Luis Borges toma a ode como “fonte de inesgotável poesia”. Além do rouxinol que havia na casa de Hampstead, conta-se que uma noite da primavera de 1819, Keats se encontrava com Severn e outros companheiros na “Spaniard’s Inn”, em Hanpstead Heath; Severn percebeu de repente que Keats se havia eclipsado e deu com ele, sob um grupo de pinheiros, a ouvir um rouxinol. Keats seguiu a inovação de Coleridge, que foi o primeiro, diz-se, a fazer do canto do rouxinol um canto de alegria. Dias antes de escrever a ode, Keats conversara com Coleridge, e na palestra entraram rouxinóis. A ode foi publicada nos Annals of Fine Arts em julho de 1819, contendendo-se sobre se foi escrita no início ou em meados de maio, se antes ou depois da “Ode sobre uma urna grega”.


13 de maio de 2018

MÃE

Hoje o meu abraço bem apertado, vai para aquelas mães que trocaram o carrinho por cadeira de rodas. Que trocaram a pracinha pelo centro de fisioterapia. Que tiveram que substituir seus sonhos por uma dura realidade. Que nunca ouviram um “manhêêê!”, mas que se comunicam com os olhos e linguagem do amor.

Meu forte abraço vai para aquela que assim como eu, já passou muitas noites insones em um leito de hospital sem saber o dia de amanhã, apenas com a esperança como aliada. Às mães de UTI. Aquelas que apesar das dificuldades, lutam por dias melhores.

Meu imenso abraço àquelas que comemoram cada pequena vitória, por mais simples que possa parecer. Às mães incansáveis, guerreiras, que lutam diariamente por direitos básicos de cidadania. Àquelas que sabem o que é preconceito e viver sem respeito e dignidade por ter um filho fora dos padrões que a sociedade impõe.

Toda minha solidariedade às mães que tiveram que enterrar o filho idealizado, e aprender a viver com o inesperado. Às mães que precisam ressignificar sua dor. Para essas mulheres leoas, incansáveis, exemplos de humanidade e força unida a sensibilidade, recebam meu abraço e saibam que ESTAMOS JUNTAS! O mundo às vezes é cruel, injusto, e muitas vezes desumano. Mas o amor que nos move, é maior do que tudo!

Feliz dia das mães “especiais”! 

Por Mari Hart.



Mãe, teu nome pequenino 
trago no meu coração,   
com acordes de violino
e uma enorme gratidão.

Mãe, teu nome é símbolo
do amor incondicional
A ti, reverência.

(Elenir)





Elenir
Em homenagem ao seu dia, envio alguns Haicais, desejando a todas as mamães, aos filhos, às titias, aos papais e, também, ao nosso Clube, que nos traz o aconchego  e  carinho de mãe, muitas alegrias nesse dia.




Mãe! suavemente
norteastes minha vida.
 Saudade sofrida.

Maior que o oceano
infinito como o céu
é o teu amor Mãe!

Mãe, o teu silêncio
dizia mais que as palavras.
Escuto-o, ainda.


Às mamães do CLIC, aos pais-mães, às titias-mães, enfim, a todos os  que, mesmo não tendo gerado, abrigam  no coração o inigualável amor de mãe, meu carinhoso abraço. Parabéns! Um domingo muito feliz para vocês!



No brilho da estrela
e na doçura da brisa,
eu te encontro, Mãe!
                                  
Mãe, nome pequeno
que traduz sabedoria,
amor e coragem.

Flor de lis e luz
tu perfumas e iluminas
os teus filhos-Mãe!
                                    
Mãe, o teu amor
nosso caminho ilumina.
Evita os tropeços. 
                                
Beijos.
Elenir


Paula Modersohn-Becker


Ensinamento 

Minha mãe achava estudo 

a coisa mais fina do mundo. 

Não é. 

A coisa mais fina do mundo é o sentimento. 



Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, 

ela falou comigo: 

"Coitado, até essa hora no serviço pesado". 



Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente. 

Não me falou em amor. 

Essa palavra de luxo.


Adélia Prado




Para Sempre 

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento. 


Morrer acontece

com o que é breve e passa

sem deixar vestígio.

Mãe, na sua graça,

é eternidade.

Por que Deus se lembra

- mistério profundo -

de tirá-la um dia?

Fosse eu Rei do Mundo,

baixava uma lei:

Mãe não morre nunca,

mãe ficará sempre

junto de seu filho

e ele, velho embora,

será pequenino

feito grão de milho.




És tu, Mãe, o símbolo
do amor incondicional.
Sempre dá. Não cobra.