CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

Fundado em 28 de Setembro de 1998

29 de agosto de 2016

Revivendo passados de novo - O Outro Pé da Sereia: Mia Couto





A costa indiana é agora uma linha flutuando no horizonte. A nau tornou-se no último lugar do mundo. À volta tudo é água, transbordação de rios e mares. O navio é uma ilhota habitada por homens e os seus fantasmas.

... Inclinado na cesta da gávea, o marinheiro anunciava que a viagem já não teria mais retorno.

- Daqui em diante, nenhuma ave mais haverá.

Um vazio pesou sobre o estômago do sacerdote português. Quando saíra de Goa, ainda na proteção do estuário, a viagem surgia como um caminho dócil. Mas quando o mar se desdobrou em oceano e o horizonte todo se liquefez, lhe veio uma espécie de tontura, a certeza de que o chão lhe fugira e a nau voava sobre um abismo. Silveira não tinha dúvida: chegara ao irreversível momento em que a água perde o pé e o mar abandona o suave maneirar dos rios. Dali em diante, o mundo se resumiria àquela nau, rompendo caminho entre domínios que eram mais do Diabo que de Deus.

Em “O Outro Pé da Sereia”, o moçambicano Mia Couto, alterna entre passado e presente para nos apresentar Moçambique. Em 1560, revivemos a colonização portuguesa, acompanhando a expedição do jesuíta D. Gonçalo da Silveira (personagem histórico), da saída de Goa, na Índia, até a fronteira entre Zimbabwe e Moçambique, nas terras do chamado reino Monomotapa, da África do século XVI. A partir do resgate de fontes históricas, o autor romanceia a história do jesuíta em sua missão de conversão e moralização do reino e de seu imperador. Em 2002, nos deparamos com o retrato de uma Moçambique que, após a independência em 1975, foi assolada por quase 16 anos de guerra civil (1977 - 1992) e que luta para se erguer.




Escrevo na penumbra quase total do porão onde me aprisionaram. O escuro até me ajuda: afinal, esta carta é um adeus. Ou, quem sabe, um agradecer aos deuses? Navegamos entre perigos e incertezas. Salvamo-nos de fogos e tempestades. Contudo, esta viagem não se está fazendo entre a Índia e Moçambique. É sempre assim: a verdadeira viagem é a que fazemos dentro de nós. Quem conduz o barco, porém, não é o timoneiro. Quem guia o leme é a Kianda, a deusa das águas.

Kianda, Mama Wati ou Nzuzu é a deusa que mora em águas limpas. “... no leito do rio havia um lugar sem fundo, onde a propria água se afundava, afogada nos abismos. Nessas profundezas morava Nzuzu, a divindade do rio. De quando em vez, uma moça desaparecia nas águas. Não morria. Apenas permanecia residindo nos fundos lodosos, aprendendo a arte de ser peixe e os sortilégios da adivinhação. Ficava anos nessa submersa moradia até que, um dia, reemergia e se apresentava às famílias para exercer então, a profissão de curandeira.” “... Ela vive com a nyoka, a serpente. Quando a água fica suja, a serpente sai a espalhar maldades e feitiços”. (Acima: Mami Wata, de Moyo Ogundipe, 1999).

Quem nos leva nesta viagem é a personagem que tem “corpo de rio e nome de canoa”, Mwadia Malunga. Através dela, somos apresentados às personagens da atualidade: Zero Madzero, o pastor de burros e cabritos, que vive em Antigamente, e carrega em si a ambigüidade da presença e da ausência, do ser vivente e de um fantasma; Constança Malunga, a matriarca que revela a ligação de Mwadia com Nzuzu, a deusa das águas límpidas; Lázaro Vivo, o adivinho que faz a ponte entre o mundo dos vivos e o dos mortos, entre o universo sagrado da tradição e o da modernidade; Benjamin, o afro-americano que busca sua origem ancestral; e outros.

Nesses últimos dias, Mwadia fechava-se no sótão e espreitava a velha documentação colonial. Agora, ela sabia: um livro é uma canoa. Esse era o barco que lhe faltava em Antigamente. Tivesse e ela faria a travessia para o outro lado do mundo, para o outro lado de si mesma.

... Disto tudo sabia Constança quando pediu o seguinte a sua filha mais nova:

- Agora, leia para mim. Eu também quero ir nessa viagem ...

Mwadia aproxima culturas, religiões, momentos históricos, como uma embarcação capaz de ligar culturas e viajantes que entrecruzam fronteiras temporais, geográficas e interiores às personagens.

A viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessam as nossas fronteiras interiores” .

Certo excesso de frases de efeito, e elementos temáticos (silêncio e palavras, realidade e delírio; lucidez e loucura; razão e emoção; vida e morte; passado e presente; tradição e modernidade, escravidão, servidão feminina, simbolismos, mitificação, mestiçagem, incesto, aids) por vezes quebram a fluidez da leitura e nos lembram da presença do autor e de sua própria viagem. Porém, não há dúvidas de que Mia Couto domina os mistérios da contação, e na maior parte do tempo consegue nos envolver e nos prender nos meandros da trama. A cada momento somos surpreendidos por segredos e questões para as quais não são dadas respostas. E os elementos metafóricos são interpretados pelas personagens de maneira quase sempre tão duvidosa que exigem do leitor sua própria interpretação da obra. A minha, ainda não a tenho, mas penso que viver ausências, seja as de Antigamente ou as de Vila Longe, não seja viver. Nada simples se erguer, mas prefiro seguir o rio da vida e plagiar a personagem Rosie: como se diz lá no Brasil, “Sacode a poeira e dá a volta por cima”, pois, bom é “viver e não ter a vergonha de ser feliz”.

28 de agosto de 2016

Aconteceu na Bienal de 2009 no Riocentro - Os Sertões: Euclides da Cunha


No solo desértico
as raízes se entrelaçam
e, juntas, resistem.

(Elenir)





Cara Elô,


Que belas magens você nos enviou saudando a primavera! Desejo-lhe, também, uma primavera com muitas flores, perfumes e cores. A seguir os trechos de "Os Sertões" que você me pediu. Falando da flora desértica, Euclides cita as "favelas" que têm nas suas folhas a defesa, pois, à noite, a despeito da secura do ar, resfriam-se abaixo da temperatura deste, formando precipitações de orvalho, e, por outro lado, a mão que a toca encontra uma chapa incandescente, ardente. Descreve, a seguir, aquelas cujo comportamento me encantou e que citei na Bienal: 

"...quando ao revés das anteriores, as espécies não se mostram tão bem armadas para a reação vitoriosa, observam-se dispositivos porventura mais interessantes: unem-se, intimamente abraçadas, transmudando-se em plantas sociais. Não podendo revidar isoladas, disciplinam-se, congregam-se, arregimentam-se. ...Estreitamente solidárias, as suas raízes, no subsolo, em apertada trama, retêm as àguas... E vivem. Vivem é o termo, porque há, no fato, um traço superior à passividade da evolução vegetativa..." 

A meu ver, essas plantas dão ao homem um belo exemplo de solidariedade. E, mais adiante, falando dos preparativos para um assalto ao arraial a 13 de julho, ele diz, suponho, com certa ironia:


"...porque havia pouco mais de cem anos um grupo de sonhadores falara nos direitos do homem e se debatera pela utopia maravilhosa da fraternidade humana..." 

Comparei ambos os trechos que me tocaram muito.

Abraços.

Elenir



Quais são os seus sertões?


Os Sertões

Euclides da Cunha 

Debate: 20/09/2009 - 18:00 h 

Bienal do Livro Riocentro

27 de agosto de 2016

"O Tempo entre Costuras" - María Dueñas


Quando estou entre costuras
não sinto o tempo passar.
Os sofrimentos e agruras
vão pousar noutro lugar.



Semana de reunião, os comentários sobre o livro começam a pipocar na caixa de entrada de emails dos participantes do clube de leitura, feito mísseis então inexistentes durante a guerra civil espanhola, cenário do romance do mês. É verdade que a segunda guerra mundial também surge como pano de fundo da estória, pela intensa participação nazista nas forças de apoio ao generalíssimo Franco. Sira Quiroga, a protagonista do romance, dublê de espiã e costureira, transita entre diversos personagens históricos desse período e sua vida reflete bem a conturbação da Europa em geral e da Espanha em particular. Estende sua aventura ainda pelo Marrocos e Portugal de Salazar, contando com uma intensa interferência inglesa no decorrer dos acontecimentos, uma vez que suas ações passaram a ser comandadas pelo serviço secreto britânico a partir de um certo momento. María Dueñas constrói uma trama interessante que sugere que os fatos históricos, em última instância, podem ser determinados por pessoas anônimas que não chegam a ter seus nomes registrados na história, que embora invisíveis, enquanto trabalham em suas atividades rotineiras, influenciam ativamente aqueles que decidem de fato os destinos do mundo.

Como sempre, as opiniões entre os participantes do clube têm sido bastante díspares, havendo desde aqueles que acham que Sira não passa de uma Sabrina espanholada a aqueles mais apaixonados que atribuem a Sira um destino bem melhor, sugerindo que nossa heroína representa a verdadeira essência feminina: “elegante, corajosa, inteligente, audaciosa, sedutora, leal, amorosa, Mulher.”

Não perdemos por esperar a próxima sexta-feira!

E ela veio! Duas horas entre costuras de pequenos retalhos de ideias e conceitos diversos que nos permitem seguir a confecção de nossa bagagem de leituras. Na reunião, as opiniões sobre o livro foram bastante antagônicas e divergiram de modo quase equilibrado (50 a 50%). De modo geral, o conteúdo de 'O Tempo entre Costuras' foi elogiado por proporcionar aprendizado em termos de costumes e história. A autora expôs estes temas de forma abrangente e agradável, o que nos levou a especular se este não seria seu 'carro chefe', ou seja, o livro parece ter sido construído a partir de uma pesquisa, onde as personagens são elementos introduzidos a fim de preencher a trama.


Na era do ipad, relembramos nossas antigas aulas de datilografia (para quem as teve) através da italiana Hispano-Olivetti Lettera 35, pretexto para a sentença de morte de um futuro em comum entre Sira e Ignacio.


Quanto a Sira, alguns leitores a acharam uma personagem vazia, imatura, simplória, facilmente manipulada, enquanto outros a leram como uma mulher corajosa, decidida e à frente de seu tempo. O final do livro, também variou de “horrível!” a “um grande barato!” ou “Dez!” 'O Tempo entre Costuras' foi uma leitura de altos e baixos.

A mudança abrupta na estória a partir da segunda metade do livro (ou pouco mais adiante para alguns) deu pano para manga. Esta mudança foi dita ter transparecido uma sensação de súbita desumanização da personagem principal, não compatível com a narrativa da primeira parte do romance, passando a sensação de haver dois livros em um só. Uma leitora descreveu o desconforto como 'não conseguindo acompanhar a personagem e não querendo que ela a acompanhasse!'. Em defesa de 'O Tempo entre Costuras', comentou-se sobre um processo de amadurecimento pelo qual passa a personagem principal, o que explica a mudança natural de caminhos na estória. A construção deste processo de amadurecimento parece ter sido o problema.

A linguagem e estilo de escrita foram vieses à parte. Ao ceder a narrativa em primeira pessoa à personagem principal, María Dueñas, segue a 'escola dos estilistas', utilizando-se de frases longas e descrições detalhadas de ambientes, vestimentas e outros pormenores, o que resulta em um estilo de leitura requintado (a modo Proustiano). A autora, porém, não é sempre feliz ao utilizar esta ferramenta, que às vezes se mostra excessiva e repetida. Como resultado, o que deveria revelar o bom gosto da personagem (com ares de sofisticação e elegância), ocasionalmente, acaba por retirar a fluidez da leitura lembrando-nos sobre sua existência e revelando-nos suas intenções.






 "O tempo, entre costuras,

alinhava seus recados;


faz de n
ós, entre molduras,


mosaicos desengon
çados."

26 de agosto de 2016

Quarto de despejo: Diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus

Olá queridos!
Para complementar a postagem de leitura de novembro, trago o post que fiz no meu blog Mar de Variedade, sobre esse livro.

Esse foi um dos livros lidos no Clube de Leitura #Leia Mulheres. 
Esse livro infelizmente está esgotado. Ou você compra no sebo ou tenta conseguir algum arquivo em pdf.
Gostei muito da leitura!


Sinopse: Diário da Carolina, refente ao seu dia a dia, durante alguns anos, quando morava na favela do Canindé, em São Paulo.  O diário foi destaque na Revista O Cruzeiro, de 1959. No ano seguinte foi publicado o livro, com a ajuda do  jornalista Audálio Dantas.




Adoro ler histórias que mexam comigo, que toquem fundo a alma e o coração. E é o caso desse livro.
O legal de participar de um clube de leitura é a possibilidade de ler livros que talvez você não se interessasse em ler se não fosse o clube. Gosto de sair da minha zona de conforto.
Acho quase impossível alguém ler esse livro e não se sentir tocado de alguma forma.
A Carolina, na sua simplicidade e extrema pobreza, relata o seu dia a dia em alguns cadernos. O editor do livro não retirou os erros de português, então, o diário se torna ainda mais realista.
O título Quarto de despejo se deve ao fato de Carolina considerar as ruas e seus prédios como sala de visitas e a favela, com seus barracões, o quarto de despejo.
Ela conta a vida que leva com seus três filhos, sendo negra, mãe solteira, e vivendo em uma favela sem qualquer infraestrutura.
Ela precisa carregar água todos os dias. Nem sempre tem o que comer. Há dias em que só tem o almoço, às vezes, só o jantar. E há aqueles dias em que precisa procurar comida no lixo para ela e os filhos.
Ela relata as confusões entre alguns moradores, as brigas de casais, os vícios, principalmente o alcoolismo presente em algumas famílias.
Apesar de viver em um ambiente nada favorável, ela tenta não se envolver nas confusões da favela, está sempre lendo e escrevendo em seus diários. 
Ela é uma mãe exemplar e se entristece toda vez que não tem comida para dar aos seus filhos.
A autora encontrou na escrita uma fuga para a vida difícil que levava. Chegou a pensar em se suicidar, pois, em alguns momentos, achava que não valia mais a pena viver diante da miséria.
Ela não tinha o direito nem de ficar doente, pois era catadora de papel e ferro, e dependia do trabalho de cada dia para ter o que comer, além de não ter condição financeira para comprar remédios. 

"Resolvi tomar uma media e comprar um pão. Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as arvores, as aves tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos."


Ela consegue mostrar nesse diário que você pode fazer diferença e ser uma pessoa de bem, mesmo morando em um lugar totalmente desfavorável e vivendo na miséria. 
Um fato interessante é que a Carolina tinha orgulho de ser negra, mesmo com todo preconceito que sofria. E era muito sábia ao falar que não entendia por que o branco poderia se sentir superior ao negro, se ambos ficavam doentes da mesma forma e sofriam dos mesmos males. 
Sei que nem todo mundo gosta desse tipo de livro, por ser um diário, em que há partes um pouco repetitivas, mas eu gostei muito de ter a oportunidade de conhecer um pouco mais de perto sobre a realidade de uma favela de São Paulo, nos anos 50. 
A Carolina também publicou outros livros. Espero ter a oportunidade de lê-los. 
Recomendo!

24 de agosto de 2016

Em Outubro no CLIc - A tragédia brasileira: Sérgio Sant'Anna



A garota devolve a Cristo um sorriso puro de dentes branquíssimos e é esse sorriso que exorciza de verdade o Demônio, que pode ser visto num relance, a afastar-se de Cristo na forma de uma velha beata e corcunda que sai de cena resmungando, com o rosto escondido por um xale.  Cristo percebe, nesse momento, que o Demônio era uma presença dentro dele próprio e não da garota.


Já com Buda não pode haver Demônio, pois ele próprio é, simultaneamente, Deus e o Demônio. Não lutando contra ou a favor de um ou de outro, Buda permite que os dois opostos dentro de si estejam conciliados e não em conflito.



A alavanca de mudança é um símbolo fálico. (Freud)



Também diante de Buda, agora, no espaço cênico, passam guerreiros. São guerreiros chineses e dirigem-se a derrubar uma dinastia. Vêem Buda, a princípio, com o desprezo com que o forte examina o fraco. Por puro tédio, ou crueldade, um daqueles guerreiros aproxima-se de Buda, desembainha a espada e pensa em atravessar com ela as carnes flácidas de Buda. Buda, que sabe ler a alma de um homem, pressente o perigo, mas se limita a cheirar uma flor e, nesse instante limítrofe da morte, descobre novas sutilezas na fragrância da flor. Pois é a possibilidade de morrer que faz Buda tornar-se ainda mais atento, embora sem intencionalidade, a seus sentidos. E ele sorri para essa nova oportunidade de penetrar no âmago da vida. Buda sopra a flor e suas pétalas voam ao vento. Buda sabe que nenhum homem é tão forte que não se defronte um dia com algo mais forte do que ele. E, como as pétalas de uma flor, às vezes a maior força de um homem é deixar-se ir, carregado pelo vento. 
O guerreiro chinês dá uma gargalhada, porque captou num relance a mensagem de Buda. Ele e seus companheiros, agora, estarão carregando Buda consigo para a China e o Japão e, sendo guerreiros, serão como uma revitalização de Buda. Atravessarão impiedosos os inimigos com as armas e, ainda assim, serão como Buda. Buda é todos os homens e assim passa por todas as provações e sentimentos deste mundo; deve-se sentir como o vencedor e como o vencido. Deve descer ao inferno, como Cristo em suas dúvidas, e ser o espectador e participante de acontecimentos tão terríveis quanto o de uma criança que perdeu os pais e mutilou-se numa guerra que não é sua. E que permanece ali, à margem, desamparada e sem nenhuma probabilidade de ter esperança. Mas é também nesse terreno que pode germinar a paz, o Nirvana, de Buda. Antes, porém, sentirá o gordo Mestre, diante de tal espetáculo, o desespero e a revolta contra o Poder Supremo. Até que, por exaustão, conheça que não há Poder Supremo a dirigir o Grande Espetáculo e que Deus - ele próprio, Buda - é apenas o fluir assim, eterno, daquilo que é comparado a um rio. 

Gregor Samsa
Maomé e seus seguidores, ao contrário, combaterão pelos tempos afora o Mal e o Demônio, como se fosse possível aniquilá-los um dia. No Corão busca Maomé, através da certeza, a morte de toda angústia. Sem se dar conta de que o Mal e o Demônio se encaravam dentro dele mesmo e que, para destruí-los, deveria degolar a própria cabeça e não dos infiéis. 


Maomé e seus discípulos jamais beberão uma gota de vinho, porque esse vinho soltaria o Demônio tão sufocado dentro deles e os deixaria enlouquecidos. 

le-buveur-toulouse-lautrec
"Estou me acostumando com a ideia de considerar todo ato sexual como um processo em que quatro pessoas estão envolvidas" - (Freud)


O poeta é aquele que em primeiro lugar decifra, mergulha, (n)aquilo que ainda se encontra invisível para seus semelhantes. 

Na foto o Cliceano que indicou o romance-teatro
Entreatos
Dezoito anos depois, A Tragédia Brasileira, de Sérgio Sant’Anna, é uma representação quase perfeita do país nas últimas décadas  
A primeira impressão provocada por A Tragédia Brasileira, de Sérgio Sant’Anna, é a de que estamos diante de uma obra datada. Com uma trama que se passa em 1962, o livro foi publicado com uma tiragem reduzida pela Editora Guanabara em 1987 — um tempo em tudo distante do que vivemos agora, em 2005. A passagem do tempo, entretanto, acaba contando a favor deste livro definido como um “romance-teatro”, numa feliz convergência entre suas técnicas narrativas, o acaso do mercado editorial e a própria história do Brasil nestas últimas quatro décadas.
Dividido como uma peça de três atos, o livro tem justamente nas suas várias gradações, internas ou externas, seu elemento-chave. No primeiro ato, predomina a linguagem teatral, embora seja evidente que o palco a que Sant’Anna recorre não se presta à representação cênica; ele é uma fórmula que serve para agregar novos recursos à narrativa. É por meio dessa dramaturgia imaginária que se conta, logo de início, a história do atropelamento da menina de 12 anos Jacira, morta pelo personagem do Motorista quando lhe despontavam os pequeninos seios, surgiam as penugens púberes, manchava-se o vestido de sangue pela primeira vez.
Não faltará o erotismo típico de Sant’Anna, que vai de um tom rodriguiano de dessacralização da inocência até um mais provocador, com um pouco de pedofilia, e resvala em sugestões de necrofilia. Aqui e ali, apresenta-se um pouco daquele país que saía do pós-desenvolvimentismo de JK, preocupado com a contusão de Pelé na Copa do Chile e em dúvida se a solução para o Brasil estava nas mãos de Deus ou nas dos militares. Perguntas de quem se pôs a escrever duas décadas depois, quando já se tinha passado pela ditadura e o país do futebol andava meio traumatizado com o jejum de títulos.
Novas possibilidades, então, vão surgindo. À medida que Sant’Anna investe mais na prosa, desenham-se outros cenários e personagens. No segundo ato, Jacira se confunde com a atriz que a representa; o Negro misterioso, que espreitava a menina de um terreno baldio, reaparece como contra-regra; e o melancólico e apaixonado Poeta Roberto, que de sua janela viu a tragédia, mostra ser, em parte, uma idealização pessoal do demasiadamente humano Autor-Diretor, que é, lá pelas tantas, um eco do próprio Sant’Anna.
A partir do terceiro ato, a encenação se apresenta mais como ideia, e é quase como um romance de ideias que se cria um terceiro nível de ficção, em que já não há mais limites: unem-se as pontas da dramaturgia e da prosa, da representação e da “realidade”. Como num círculo, voltamos à tragédia por meio de Maria Altamira, Virgem pura transformada em estrela radiante no momento em que estava também prestes a deixar a infância, atropelada por um Motorista de caminhão na Belém-Brasília — um dos símbolos de uma já antiga concepção de progresso e, também, esboço de metáfora religiosa.
Já aqui, na própria narrativa, as perguntas são outras. E hoje, quase 20 anos depois de o livro ter sido escrito, temos tantas outras a acrescentar. No ato que encerra as três épocas da história da obra, a tragédia persiste. Orgulhosos de um futebol pentacampeão, também nos vemos — arrasadas de vez quaisquer ilusões políticas construídas desde os anos 80 — sem rumo. É como se Jacira renascesse e morresse perpetuamente, deixando no céu a luz de uma estrela incerta, que talvez leve a um lugar que não este.
BRAVO!, outubro de 2005
© Almir de Freitas




Existe algo à beira da possessão demoníaca no Islã. Como se o Fundador fosse um dos anjos aliados de Lúcifer que no último momento se houvesse contido. Esse anjo se embevecera com a arrogância de Lúcifer e sua beleza feminina, mas teve medo de Deus e do castigo. E também de um desejo seu, inexplicável e tido como terrível: o desejo da treva total que há dentro de um regaço feminino antes de um homem haver nascido. Mandou então que se cobrisse a beleza feminina e a rotulou para sempre como impura. Enquanto eles próprios, os homens muçulmanos, estarão condenados a cavalgar loucamente pelos tempos afora, brandindo a espada contra os infiéis. Fugindo, talvez, no eco das patas de seus cavalos, da parte de seu corpo e alma que é mulher.





23 de agosto de 2016

A menina que roubava livros - Markus Zusak


"Se o Clube de Leitura Icaraí leu...



... vamos filmá-lo!"



Sucesso garantido!



Caro Leitor, qual a cor de tua alma? Teus olhos revelam algo sobre o que brilha em teu interior? Que livro roubarias do inferno se este um dia te atormentasse? Qual a música que ouves em teus sonhos? Que segredo guardas no teu porão? Que respostas são essas que não ousas confessar a ti mesmo? Venha, vamos tomar de assalto o pomar da existência antes que as intempéries nos expulsem ou nos recolham para longe do que nos é mais querido.

Em fevereiro o Clube de leitura Icaraí lê “A Menina que Roubava Livros”, do australiano Markus Frank Zusak. O livro conta a estória de Liesel Meminger, menina que é entregue pela mãe aos cuidados de uma família adotiva que habita a periferia de Munique, Alemanha, durante a segunda Guerra Mundial. Filho de mãe e pai nascidos na Alemanha e Austria, na época da Segunda Guerra, o jovem escritor conta que cresceu ouvindo histórias a respeito da Alemanha Nazista e sobre judeus marchando pela pequena cidade alemã de sua mãe. Em entrevista, Zusak conta que partes do livro são inspiradas em fatos reais, como fragmentos da história de vida de sua mãe alemã, que cresceu sob os cuidados de uma família adotiva e nunca chegou a conhecer o próprio pai. E, assim como Liesel, que desenvolveu adoração por livros, Zusak brinca contando já ter “furtado” alguns livros de biblioteca na época de estudante.


"Livro comprado ou roubado
ajuda a gente a viver.
Pois estando ao nosso lado,
o mal nos leva a esquecer."

Após uma seqüência de livros que tratam de Guerras devastadoras, como a Guerra Civil em Moçambique, abordada por Mia Couto, em “O Outro Pé da Sereia”; e a Guerra da Coréia, por Philip Roth, em "Indignação"; é razoável temer outro laboratório, que nos leve a nova viagem a um período tão duro quando o da Segunda Guerra Mundial (mesmo após um agradável intervalo de “Pequenos Amores”). Mas a leitura de “A Menina que Roubava Livros” surpreende. O romance não é contado nem a partir da visão do Holocausto (“A Vida é Bela”, de Roberto Benigni – comédia dramática), nem das entranhas do Nazismo (“A Queda! As Últimas Horas de Hitler”, Oliver Hirschbiegel – drama). Em seu livro, Zusak tenta mostrar outro lado da Alemanha Nazista, a história de alemães comuns (“Alemanha, Mãe Pálida”, de Helma Sanders-Brahms), não dominados pelo ‘carisma’ e poder de seu líder e seus discursos. A versão dos que buscam “O Coração Informado” (cf. Bruno Bettelheim).

...o livro do mês faz referências aos holocaustos mas a ênfase, na minha maneira de ver, é no poder da leitura para enfrentar qualquer mal que seja. Os alemães eram queimadores de livros e uma menina alemã analfabeta, então, os salvava. O livro era sua esperança de vida contra os idealistas sem compaixão de uma sociedade “perfeita”. A Menina queria roubar a vida dos escombros e horrores do nazismo. A vida pode estar desmoronando e quando tudo parece perdido, um livro pode nos mostrar a saída. O livro mostra a tragédia nazista pela óptica de alemães. Particularmente, nunca tinha visto nada parecido.

Embora faça sucesso entre os jovens leitores, A “Menina que Roubava Livros” é leitura para adultos. Parte da mensagem é sobre o poder das palavras e da propaganda, o que nos remete a um questionamento já feito em leitura anterior: até onde, poderes dirigentes de um Estado de massa social, econômico e político são capazes de manipular a mente de um indivíduo, de uma sociedade? É fato que o ambiente pode influir, e de fato influi, em aspectos importantes do comportamento e da personalidade do homem. Mas, fugindo ao que diz o ditado: “o que os olhos não vêem o coração não sente”, é necessário “o coração informado” para o desenvolvimento e exercício de senso crítico. E se o homem nem sempre pode ser decisivo no que diz respeito ao que ele é e será dentro da sociedade, independente desta, que ao menos este seja capaz de usufruir de sua liberdade de pensamento e resguardar algum tipo de identidade e dignidade, junto a manutenção de valores importantes para si.







"Guarda chuva, guarda sol,
guarda tudo, até lembrança;
guarda sonhos de arrebol
desde que era criança."






Através de Liesel, conhecemos crianças e adultos que desafiavam as regras e ajudavam uns aos outros, 'vivenciamos' o amor entre estranhos, o céu queimar após um ataque aéreo, a emoção e coragem de resgatar um livro prestes a ser queimado em sessão pública por oficiais nazistas, a dor de famílias separadas. Engana-se, contudo, quem pensa que a leitura é mórbida e assustadora. Uma particularidade, torna o livro de Zusak muito interessante: é a Morte quem narra a história. Com um diferencial, que traz luz à leitura: nesta estória, é a morte que tem medo de nós. Zusak brinca com nossa tendência a ver “guerra e morte juntos, como se fossem melhores amigas”.

"I think war is more like the boss at death's shoulder, always wanting more work to be done. Death's as confused about everything as us." ("Eu acho que a guerra é mais como o patrão no ombro da morte, sempre querendo mais trabalho a ser feito. A morte é tão confusa sobre tudo como nós.") (Markus Zusak, The Sydney Morning Herald )

E assim, a história da Alemanha Nazista é contada através dos olhos de um(a) simpático(a) e bem humorado(a) ceifador(a), assombrado(a) pelas ações dos seres humanos. Nós, que ambiguamente podemos ser tão belos e tão feios.

A reunião ocorreu em 04/02/2011. Nela, reinou a diversidade de idades, opiniões, conhecimentos, vontades etc. Tivemos participantes de 12 a mais anos. Foi muito bom ver o entusiasmo dos jovens com suas leituras. Muito bom tê-los por perto. Dentre as curiosidades, fomos alertados para a inadequação do verbo ‘roubar’, utilizado na tradução do original em inglês para o português. Rigorosamente esperaríamos o uso do verbo ‘furtar’, visto nunca haver violência nos atos de Liesel. Assim, teríamos ‘A Ladra de Livros’ ou ‘A Menina que Furtava Livros’, mas talvez não parecesse belo aos ouvidos... Belo, na verdade, foi comprovar que opiniões contraditórias podem ser complementares. Tivemos exaltação da beleza poética do livro, seguida por crítica ferrenha a sua linguagem e conteúdo literário sem que uma anulasse o valor da outra, mas ao contrário se somassem, ampliando nossa visão para o que lemos. Notamos que nossa leitura é limitada, uma vez que podemos não ter o rigor técnico/literário, a sensibilidade poética, ou a devida atenção para a linguagem e semântica que felizmente muitos de nossos amigos carregam em suas bagagens, mas, ao ouvi-los, aprendemos. O clube é prova de que nossa maior riqueza pode estar na diferença, na não imposição de regras preconceituosas, na liberdade de escolhas. Viva a diversidade!





22 de agosto de 2016

Santa Trindade: Luiz Gavri


                         
                                      a Bernini.

Próton, elétron e neutron enganam.
Pois, a carga maior é de quem junta.
É o terceiro incorporado
Que não anula os opostos.

Lolita nunca teve orgasmos
Em Santa Tereza, ao contrário,
Mais que múltiplos,
Eram permanentes.

Santa contradição.
O Filho sem Pai,
O Espírito no anjo.
Bendita seta inflamada.

(Niterói,11/08/13)


21 de agosto de 2016

a máquina de fazer espanhóis: valter hugo mãe


Nosso protagonista do mês, sob a gravidade de seus 84 anos de idade, enxerga o mundo todo em letras minúsculas. Quando o texto sai da esfera do Sr. Silva como, por exemplo, no capítulo sobre o ídolo peruano Teófilo Cubillas, que jogou no Futebol Clube do Porto entre 1974 e 1976, o texto volta ao que seria de se esperar, com frases e nomes próprios iniciando com letras maiúsculas. Na minha opinião, deveria ter permanecido com letras minúsculas porque o Sr. Cubillas estava naquela vergonhosa derrota da seleção peruana para a Argentina de 6x0, que desclassificou a seleção canarinho. Um verdadeiro episódio de ficção!

Quando a mulher do Sr. Silva vira metafísica, nosso anti-herói lamenta, inicialmente, não viver em um admirável mundo novo, para que a dor da perda não o oprimisse de forma tão desumana, como estava sendo viver em um mundo sem Laura.  Por isso é que  esses relacionamentos emocionais intensos ou prolongados  são proibidos e considerados anormais no admirável mundo novo de Huxley: poupa esses tormentos das perdas. O Sr. Silva maldiz suas memórias, e a saudade que sente, comparando-as a uma opressão fascista. No entanto, ao encontrar no asilo da Feliz Idade um personagem de um poema de Pessoa,  o Esteves sem metafísica, ele flerta inicialmente com a metafísica, para em seguida aceitar que o que lhe resta é a companhia de novos amigos e de seus próprios pesadelos.


"Com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano, esse é o limite, a desumanidade de perder quem não se pode perder..."






O Sr. Silva costumava ter pesadelos onde abutres devoravam seu corpo. Lembrei-me da premiada fotografia de Kevin Carter, que mostra que o pesadelo do nosso herói do mês não é tão metafísico assim. Escusa-se de falar a referência à obra prima de Hitchcock.


(photo: nelson d'aires) as gralhas grassam

         
          TABACARIA 
                   (Álvaro de Campos, 15-1-1928)
           
        Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
        ...
        Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu. Estou hoje dividido entre a lealdade que devo À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro. 
         ...
        (Come chocolates, pequena; Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. Come, pequena suja, come! Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho, Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.) 
        ...
          Essência musical dos meus versos inúteis, Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse, E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte, Calcando aos pés a consciência de estar existindo, Como um tapete em que um bêbado tropeça Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada. 
          Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta. Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada E com o desconforto da alma mal-entendendo. Ele morrerá e eu morrerei. Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos. A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também. Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, E a língua em que foram escritos os versos. Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas, 
          ...
          Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?) E a realidade plausível cai de repente em cima de mim. Semiergo-me enérgico, convencido, humano, E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário. 
           ...
           (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira Talvez fosse feliz.) Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela. O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?). Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica. (O Dono da Tabacaria chegou à porta.) Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. Acenou-me adeus, gritei-lhe , e o universo Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


        Periodista Digital
        "- sabes que os peixes tem uma memória de ... 3 segundos... é por isso que não ficam loucos dentro daqueles aquários sem espaço, porque a cada 3 segundos estão como num lugar que nunca viram e podem explorar. devíamos ser assim, a cada 3 segundos ficávamos impressionados com a mais pequena manifestação de vida, porque a mais ridícula coisa na primeira imagem seria uma explosão fulgurante da percepção de estar vivo. compreendes. a cada 3 segundos experimentávamos a poderosa sensação de vivermos, sem importância para mais nada, apenas o assombro dessa constatação.  
        Corvos - Lucio Bouvier
        - seria uma pena que não voltasse a se lembrar de mim, sr. silva, não gosto dessa teoria dos peixes, porque assim não se lembraria de mim.
        ...
        estava no ponto peixe. o glorioso ponto peixe a partir do qual o destino nos começa a ser irrelevante. encaramos as coisas com o mesmo drama com que em segundos o esquecemos e nos esperançamos de alegria por outro motivo qualquer, sem saber por quê."


        "... Muitos mentem sem pudor para não se deixarem humilhar, pouco importava tudo isso porque tão na extremidade da vida eram todos a mesma coisa, um conjunto de abandonados a descontar pó ao invés de areia na ampulheta do pouco tempo".


        Para ler carta enviada a Valter Hugo Mãe por uma leitora do CLIc acesse: http://ritamagnago.blogspot.com/2011/08/carta-enviada-ao-valter-hugo-mae.html

        A carta-resposta do autor está em http://ritamagnago.blogspot.com/2011/09/resposta-do-meu-dileto-escritor.html



        Alguém aí sabe como tirar o fascismo das pessoas?

        Leia este livro.


        20 de agosto de 2016

        Erótico: Clara Nascimento







         Emily Dickinson,
        Phil Z Clitzdaughter,
        E.E. Cummings.
        I touch myself.

        You feel me.
        Skin to skin,
        Tongue to tongue.
        It needs two to tango,
        You grab me by the waist
        I slightly bend forward,
        What move is this,
        Who dares to tell?

        One leg up,
        Curled around your hip,
        I press you close to mine.
        Eyes that gaze in a well
        As deep as the desire.

        What is this dance to me?
        A flame that burns from inside out.

        What is this flavour wire to you?
        A land of lust and lost souls.

        19/08/16