CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

15 de agosto de 2017

Eles estão de volta no CLIc - Grande Sertão: Veredas - Guimarães Rosa

17/08/2017
19:00h

Varanda do Teatro da UFF







“Diadorim levantou o braço, bateu mão. Eu ia estugar, esporeei, queria um meio-galope, para logo alcançar os dois. Mas, aí, meu cavalo f’losofou: refugou baixo e refugou alto, se puxando para a beira da mão esquerda da estrada, por pouco não deu comigo no chão. E o que era que estava assombrando o animal, era uma folha seca esvoaçada, que sobre se viu quase nos olhos e nas orêlhas dele. Do vento. Do vento que  vinha, rodopiado. Redemoinho: o senhor sabe – a briga de ventos. O quando um esbarra com o outro, e se enrolam, o dôido espetáculo. A poeira subia, a dar que dava escuro, no alto, o ponto às voltas, folharada, e ramarêdo quebrado, no estalar de pios assovios, se torcendo turvo,
esgarabulhando. Senti meu cavalo como meu corpo. Aquilo passou, embora, o ró-ró. A gente dava graças a Deus. Mas Diadorim e o Caçanje se estavam lá adiante, por me esperar chegar. – “Redemunho!” – o Caçanje falou, esconjurando. – “Vento que enviesa, que vinga da banda do mar…” – Diadorim disse. Mas o Caçanje não entendia que fosse: redemunho era d’Ele – do diabo. O demônio se vertia ali, dentro viajava. Estive dando risada. O demo! Digo ao senhor. Na hora, não ri? Pensei. O que pensei: o diabo, na rua, no meio do redemunho…Acho o mais terrível da minha vida, ditado nessas palavras, que o senhor não deve nunca de renovar. Mas, me escute. A gente vamos chegar lá. E até o Caçanje e o Diadorim se riram também. Aí, tocamos.” (p.262)





NONADA!

O alemão Berthold Zilly foi o tradutor da última versão de Grande Sertão para o alemão. Quando estava em processo de tradução, o "Jornal Cândido", da Biblioteca Pública do Paraná, publicou uma entrevista com ele, que já havia traduzido para o alemão "Lavoura Arcaica", Os sertões e "O triste fim de Policarpo Quaresma. Deixo aqui a pergunta sobre a questão da palavra "nonada": 

- A primeira palavra de Grande sertão: veredas é “nonada”, um termo que tem um significado enigmático na boca de Riobaldo. O senhor poderia explicar como verterá ao alemão esse tipo de palavra, que, ao longo das mais de seiscentas páginas do livro, se prolifera?


- “Nonada” realmente é uma palavra-chave, com seis ocorrências no total em Grande sertão: veredas, a primeira abrindo o romance e a última, de certa maneira, fechando-o, já que ocorre na penúltima linha da última página. Esta palavra constitui, além disso, o antônimo ao último sinal gráfico do livro, que é o símbolo do infinito. Assim, o movimento da trama e das ideias de certa maneira vai do quase nada ao infinito. Assim como muitas outras palavras e frases do livro, esta é por um lado coloquial e quase banal, tão banal quanto o sentido dela, ou seja: “coisa sem importância, um quase nada”, sendo por outro lado palavra estranha, rara, enigmática, principalmente no início, sendo esclarecida depois, parcialmente, pelo contexto. Esta tensão entre o corriqueiro, o popular, o cotidiano por um lado e o estranho, o enigmático, o hermético, por outro lado, é também uma característica do romance todo. Aliás, diferentemente de muitas outras palavras do livro, esta não é um neologismo rosiano, pois é uma palavra popular e meio antiquada, caída em desuso hoje, que se encontra em vários autores do século XIX e do início do século XX, inclusive em Os sertões, de Euclides da Cunha. Como vou traduzi-la? Ainda não sei, estou procurando uma expressão mais ou menos equivalente que também seja curta e concisa, popular, meio datada, e que tenha, no plano sonoro, pelo menos um elemento repetitivo, já que “nonada” tem até dois fonemas repetidos, o “n” e o “a”. Infelizmente, em alemão não temos uma palavra equivalente em termos semânticos, estilísticos e fonéticos, diferentemente do italiano, que tem “nonnulla”, ou o francês, que tem “que nenni”, e também não posso fazer o que fizeram os tradutores para o espanhol, que simplesmente mantêm “nonada”, que é neologismo em espanhol, mas que funciona nesse idioma, já que tem aí uma qualidade auto-explicativa. Em quatro das seis ocorrências, a palavra “nonada” constitui uma frase, o que não facilita a tarefa do tradutor. Estou cogitando diversas soluções, mas nenhuma me agrada muito. Antes de tomar uma decisão sobre a tradução desta palavra introdutória do livro todo, tenho que ver como os possíveis equivalentes funcionam nas outras cinco ocorrências de “nonada”. Pois quando a gente traduz uma palavra-chave com várias ocorrências, a gente deve tentar manter essa isotopia, ou seja, a igualdade do meio expressivo em todas as suas ocorrências, para que ele possa ser identificado pelo leitor do texto-alvo como elemento estruturador e orientador, função que tem no texto de partida e que o tradutor precisa respeitar. Em outras palavras: é desejável traduzir “nonada”, nas suas seis ocorrências, sempre de modo idêntico.





Viver - não é? - é negócio muito perigoso!




13 de agosto de 2017

Dia dos Pais

"Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto..."  
(Antes que eles cresçam - Affonso Romano Sant'Anna)




Paisagens correrem,
o caixeiro-viajante
viu, na vida breve.


(Haicai em homenagem ao meu pai)

Pai, cedo partistes,
mas, para sempre carrego,
teu carinho e amor.

Viu, por toda a vida,
pela janela do trem,

paisagens correrem.


Queridos amigos, papais, estou certa de que vocês deram aos seus filhos, não só quando crianças, mas até hoje, já crescidos, e muitos também papais, todo o carinho e afeto que trazem em seus sensíveis corações. 

Desejo-lhes um dia muito feliz, pleno de amor e alegria.

Abraços afetuosos de

Elenir

12 de agosto de 2017

Destino Estrangeiro: Daniel Chutorianscy


“Destino Estrangeiro é a história dos meus pais e meus avós que Daniel Chutorianscy conta neste livro. Ao contar a história de sua família, está contando um pouco a minha história, a história de filhos e netos de imigrantes judeus que chegaram tesos no início do século passado e fincaram raízes por aqui.”
Silvio Tendler


    Esta obra de Daniel Chutorianscy traz um pouco da história de migração do povo judeu para o Basil. E o faz não como relato, não como memória, não como História, mas através de um texto poeticamente construído, breve, conciso e enxuto, que brilha com a força da boa literatura. Pode-se dizer que, aqui, Chutorianscy prossegue uma linha que vai de Bashevis Singer a Scliar, passando por Phillip Roth, Saul Bellow, Primo Levi...


Neste percurso o autor aborda temas que são comuns não só a este grupo, mas que fazem parte da experiência humana: perseguições, guerras, guetos, matanças, saques e migrações. Tudo isso sugere selvageria, mas ao mesmo tempo também é capaz de revelar a potência e a força da migração e daqueles que, por opção ou por necessidade, arriscaram-se no mundo desta forma. 

Tal potência confere a este livro um tom de protesto contra o gueto, a guerra, o genocídio e os demais superlativos da perversidade humana, seja em terras frias que congelam ou nas terras quentes que sufocam. Mas também, num texto envolvente e burilado, o oposto de tudo isto: saga, sonho, poesia, esperança e a convicção de que tudo vai dar certo, como tantas vezes.  


    Daniel Chutorianscy é médico e escritor. Já publicou os livros: “A um passo da dor”, “Casa Gráfica Lindo Tipo”, “Atlânticos e pacíficos”, “Tamanho do mundo”.


Adquira o seu livro aqui


Apresentação de OS TRABALHADORES DA* MAR de Victor Hugo: Fernando Costa




- Foi por causa da minha grande admiração por OS TRABALHADORES DA* MAR que tornou-me navegante solitário, apaixonado por ilhas e evitando continentes...

- Sim, felicidade pra mim é velejar em solitário rumo a uma ilha desconhecida de preferência pequena, de preferência pouco habitada ou melhor ainda deserta e bem longe da costa, embora meu nome seja Fernando Costa. :)

- Desde que ouvi pela primeira vez essa incrível estória, (contada pelo meu pai, quando eu tinha 8 anos de idade) decidi inconscientemente transformar-me em Gilliatt...

- Tarefa das mais difíceis, pois que Gilliatt é o SUPER HOMEM de ASSIM FALAVA ZARATUSTRA de Nietzshe romantizado por Victor Hugo.

- Gilliatt é capaz de façanhas heroicas, everestianas, colossais.

- Quem sou eu pra querer ser Gilliatt?!!!

- Gilliatt é uma estrela brilhante de primeira grandeza e eu um mísero e obscuro asteroide perdido nos confins do Universo.

- Eu, navegando,não chego a ser a sombra do cão de Gilliatt...

- Ué, mas Gilliatt não possuía e nem gostava particularmente de cães.

- Gilliatt amava os pássaros, isto sim.

- Gilliatt comprava pássaros dos moleques de Guernesey, só pra libertá-los no minuto seguinte.

- Gilliatt, segundo as más línguas, é herdeiro do diabo e segundo as boas línguas filho querido da* divina* MAR...

- Sim, sim, Gilliatt é tão extraordinário que foi adotado pela divina* MAR, que abre caminho, durante as tempestades, para que ele passe incólume, a bordo de seu cascudo veleiro, arvorando quatro velas, que nenhum outro marujo conseguiu jamais domar...

-  Apesar da imensa importância de Gilliatt em OS TRABALHADORES DA* MAR, os perspicazes leitores e leitoras do simpático Clube de Leitura Icaraí perceberão rapidinho que o verdadeiro protagonista deste meta-romance ou se preferirem anti-romance é a* divina* MAR, em todos os seus estados, desde a* mar-de-azeite das calmarias equatoriais até a* mais tempestuosa das* mares, que segundo Victor Hugo, não pode ser outra que a* MAR da MANCHA onde navega Gilliatt desde sempre...

- O livro é como já lhes disse um meta-romance, obra da mais alta maturidade do autor de "Os Miseráveis" e de "Notre Dame de Paris".

- Na essência, o livro é um profundo ensaio filosófico e poético, apesar de escrito em prosa, sobre a ”obra-prima da Mãe Natureza”, os oceanos do planeta Terra.

- Pra vocês terem uma ideia de até onde vai minha paixão pelo OS TRABALHADORES DA MAR, digo-lhes que eu só fotografo para ilustrar meus extratos favoritos desse livro ímpar e inigualável...

- Sim, sim, adoro combinar fotografias com extratos favoritos dos meus livros favoritos.

- Vejam por exemplo esta combinação aqui, mais esta aqui e mais esta aqui.







- Gostaram amigos?

- Teria muitas outras coisas importantes a  dizer-lhes sobre os TRABALHADORES DA* MAR, mas como meu tempo é curto e o de vocês mais ainda, direi só mais uma coisa.

- O livro divide-se em três partes:

PRIMEIRA PARTE – Clubin

SEGUNDA PARTE – Gilliatt

TERCEIRA PARTE – Déruchette

Clubin,  importante personagem da nossa estoria sui-generis é o maior de todos os patifes que esse mundo já viu. Um salafrário travestido de cidadão digno, um homem acima de qualquer suspeita, que passa a vida inteira com a cara feia escondida por trás de uma máscara de honestidade, para aplicar um único golpe de mestre ao fim da vida. Golpe este que acaba...

De Gilliatt já falamos.

De Déruchette a jovem e bela musa de Gilliatt direi apenas que ela, como a maioria das brasileiras idem, adora “assistir novela televisiva”, essa praga, essa faculdade de todas as patifarias e por causa desse lamentável vício, acaba trocando "ouro legítimo" por "latão vagabundo".

Gostaria de chamar  atenção de vocês para três capítulos do livro, que para mim são três pequenas obras-primas dentro de uma colossal obra prima.

- Quais?






“O que se vê e o que se entrevê”





“Os ventos do largo”



Gostaria de convidá-los para visitar a exposição virtual da Biblioteca Nacional da França intitulada – L’homme Océan, sobre Victor Hugo.





 que possuiu uma sala chamada LES TRAVAILLEURS DE LA MER (Os Trabalhadores da* MAR).





Último comentário: OS TRABALHADORES DA* MAR, foi traduzido pelo mais inteligente dos brasileiros,  Machado de Assis, aos 22 anos de idade, e vocês poderão ler gratuitamente esta preciosa tradução online, no seguinte link:  Os Trabalhadores do Mar - Wikisource




Grande abraço a todas e a todos.



Fernando Costa, a sombra do cão que Gilliatt jamais teve... :)



Ahhhh, só mais uma palavrinha, que no final das contas é uma sugestão - gravem a leitura do extrato do livro favorito de vocês (5 minutos) e tragam no dia dos comentários, salvo num pendrive, pra gente realizar um troca-troca.


9 de agosto de 2017

Desespero: Sonia Salim


Edvard Munch - Desespero


Estou movida por uma grande angústia
e tomada pelo desespero
que emana de minha alma

Nas minhas veias flui melancolia

A desolação tomou conta de mim inteiramente

Não fossem os diálogos de nossos olhos
ao suicídio, eu já teria sucumbido
esse silencioso devorador de vidas

Talvez o meu coração seja ambíguo
duvidoso e direcionado a contradições

Ou essa paixão tenha sido voraz
incapaz de conviver com o medo
da separação e do vazio

Frustrações imaginárias...

Oh, meu grande amor!

Ensina-me a estabilizar o desespero
através do brilho do seu olhar

Eu não quero morrer!



      Sonia Salim



Poema feito a partir da leitura do livro 1934, Alberto Moravia, 
debatido no Clube de Leitura em Outubro de 2013.




8 de agosto de 2017

O Patriarca da Independência

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Por Wagner Medeiros Junior

José Bonifácio de Andrada e Silva nasceu na cidade de Santos – SP, em 1763. Em 1783 mudou-se para Coimbra, como era tradição das famílias ricas da época, onde ingressou nas cátedras de Direito, Filosofia Natural e Matemática, com exímio desempenho. Depois de titulado foi conduzido à Academia de Ciência de Lisboa, em 1789, quando publica “Memórias sobre a pesca da baleia”. Nesse trabalho expôs suas primeiras inquietações com a forma irracional de explorar a natureza, sem sustentabilidade.
A repercussão do talento de Bonifácio levou a Coroa portuguesa a contemplá-lo com uma bolsa para o estudo de mineralogia, o que lhe permitiu conhecer os principais centros da Europa, durante um período que duraria 10 anos. Quando retornou a Portugal, em 1800, já se tornara reconhecido em todos os círculos das ciências no Velho Continente, pelo largo conhecimento adquirido em mineração e metalurgia. Nessa ocasião já dominava seis idiomas e lia em outros cinco, além de manifestar grande interesse nas questões do Estado.
Por essa razão é nomeado para vários cargos de governo e atividades acadêmicas, até ser aposentado e retornar ao Brasil, em 1819, aos 56 anos. No Brasil, tornou-se figura central contra as pretensões das Cortes portuguesas de restabelecer a submissão brasileira à Portugal, em moldes similares aos que precederam a chegada da família real, em 1808. Ao lado da princesa D. Leopoldina, grande amiga e confidente, articulou a declaração da independência do Brasil, em 1822, pelo príncipe regente D. Pedro.
Com a independência do Brasil é elevado ao cargo de ministro do Império e dos Negócios Estrangeiros. Preocupado em manter a integridade territorial brasileira, para evitar a ruptura, conforme nas colônias espanholas, dedicou-se a rebelar os focos internos da resistência portuguesa, sobretudo na Bahia, em Pernambuco e no Maranhão, como também em construir um “projeto de Nação”. Nesse projeto, após demitir-se do cargo de ministro e assumir a cadeira de deputado por São Paulo, ainda em 1823, apresenta à Assembleia Constituinte a proposta de extinguir o tráfico negreiro e de abolir a escravidão.
Em discurso à Assembleia Geral Constituinte José Bonifácio diz ser “preciso que não venham mais a nossos portos milhares e milhares de negros..., que cessem de uma vez por todas essas mortes e martírios sem conta, com que flagelávamos e flagelamos ainda esses desgraçados em nosso próprio território. É tempo pois, e mais que tempo, que acabemos com um tráfico tão bárbaro e carniceiro; é tempo também que vamos acabando gradualmente até os últimos vestígios da escravidão entre nós, para que venhamos a formar em poucas gerações uma nação homogênea, sem o que nunca seremos uma nação verdadeiramente livres, respeitáveis e felizes”.
As ideias de José Bonifácio suscitaram a reação escravista, o que ensejou-lhe um período de seis anos de exílio na França (1823/1829). Afirmativas como a de que “um senhor de terra é de fato pobríssimo, se pela sua ignorância ou desmazelo não sabe tirar proveito da fertilidade de sua terra, e dos braços que nela emprega” irritavam os traficantes e senhores de escravo. Outro ponto de conflito foi a ideia de retomar as terras improdutivas dos latifundiários e devolvê-las ao Estado, para que fossem subdivididas e redistribuídas "entre escravos libertos, mulatos e europeus pobres, em prol de uma reforma nos costumes da sociedade, da família e inclusive do clero". 

Também aventava pelo crescimento planejado das cidades, pelo uso racional dos recursos naturais, inclusive das águas, e preservação das florestas. Visionário, pensava na criação de escolas, de pelo menos uma universidade em cada uma das províncias e na interiorização da Capital no centro do Brasil, nas cercanias de onde seria construída Brasília. Por fim, foi nomeado por D. Pedro I como tutor do príncipe herdeiros, sendo posteriormente afastado por decreto, em 1833, quando abandou a vida pública.

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Preto no Branco por Wagner Medeiros Junior