CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

28 de abril de 2015

Rubens Figueiredo no CLIc: Passageiro do Fim do Dia


Rubens Figueiredo, no Centro, com blusa branca.

Uma reunião inesquecível com a presença do escritor Rubens Figueiredo para o debate sobre seu livro “Passageiro do fim do dia”. O livro recebeu o prêmio Portugal Telecom de Literatura e o prêmio São Paulo de Literatura, ambos em 2011. Rubens Figueiredo não requisitou nenhum suporte nosso para vir ao Debate, não veio de carro nem de táxi. Quando me mostrei surpreso de que ele tivesse chegado 15 minutos antes do início da Reunião, não tendo sido pego pelo engarrafamento das sextas feiras no sentido Rio-Niterói, ele respondeu dizendo que veio de Barcas, e caminhando das Barcas até a Reitoria. Fiquei boquiaberto, já que no dia anterior eu tinha feito um comentário no blog dizendo que chegar ao Tirol era moleza, queria ver chegar em Icaraí numa sexta feira vindo do Rio na hora do rush. Ele rebateu que observando o caminho feito, se soubesse, teria vindo de bicicleta. Uau! Não é o máximo? Se tiver vindo pelo Caminho Niemeyer, deve ser no mínimo uns 4 Km de caminhada.


Já de início, adorei o bastão da fala que a Joana trouxe: um cartão do Bilhete Único. Explicando o que seja o bastão da fala para quem ainda não frequenta nossa reunião, é uma espécie de totem, algo que usamos para organizar a discussão, que se relaciona com o tema do livro, e que serve para priorizar a ordem de quem fala, na roleta passa um de cada vez, evitando que a Reunião se transforme num charivari. Bem ao jeito dos passageiros do CLIc, debatendo um livro em que a história se passa integralmente dentro de um ônibus. Nesse caso, o bilhete único reforçava a unicidade de quem estava com a palavra, de preferência um por vez.


Rubens falou que nos romances o que importa é o que está no início e o que está no fim, que a gente deve prestar atenção no que está escrito no início e no fim dos livros. Geralmente eu subestimo o início dos livros, embora ele seja essencial para dar aquele gás inicial. Deve ser porque no início ainda não entramos bem na história, não sabemos quem é quem e a trama está muito vaga, além do que eu esqueço muito facilmente coisas etéreas (isso vai me causar problemas). Ele falou que no meio do livro geralmente são coisas acontecendo, assassinatos, roubos, traições, mortes, dramas, peripécias, introduzidas pelo escritor para dar conta daquela história que ele começou a contar e terminou da maneira planejada. Ora, como bem foi lembrado, então, no livro em pauta, “o passageiro do fim do dia”, acho que ele ficou devendo os 15 minutos finais da história, porque nos ficou parecendo muito abrupto o tal final. A propósito, na construção da narrativa, ele disse que bolou a história transcorrendo dentro de um ônibus porque queria mesmo escrever uma história sobre coisas transitórias, personagens passageiros, e que o percurso do ônibus favorecia essa transitoriedade, o que talvez não seja muito verdade não, porque o ônibus ficou a maior parte do tempo preso nos engarrafamentos.


Me pareceu um tema recorrente do autor sua preocupação com o automatismo de nossas ações, nosso comportamento, nossa fala, nossa linguagem, tudo, tudo, que nos faz agir, falar e escrever muitas vezes coisas que não queremos. Disse que levou 3 anos para escrever o livro mas que o escrevia em pequenos trechos, por umas 3 semanas, e depois deixava o texto de lado, ia viver seu cotidiano e observar se o que tinha escrito era realmente o que o tinha motivado inicialmente. E ele percebia que tinha escrito muita coisa por puro condicionamento da linguagem, como se o ato de escrever estivesse impregnado de uma lógica, ou uma engrenagem que nos leva a escrever automaticamente coisas que não é nossa intenção inicial. Então ele reescrevia tudo de novo e voltava para a vida no intuito de observar se o escrito estava mais próximo da realidade que o inspirara, ou seja, os processos que regem a sociedade e os atos individuais. Me pareceu que a questão aqui era o embate entre o automatismo maquinal e a criatividade do sujeito, a luta para escrever o que realmente deseja e não o que seus leitores idealizados, o público alvo, gostariam de ler, esperam do autor. Uma preocupação sua em salvaguardar a criatividade do escritor. Me pareceu bastante obsessiva esta preocupação do Rubens Figueiredo na busca de originalidade e autenticidade de sua escrita, sua tentativa de escapar da massificação de nossa sociedade de autômatos humanos.


Essa preocupação excessiva em descrever o que acontece e as ações dos personagens com o máximo de rigor tornou a obra bastante minuciosa nos detalhes e gerou comentários e questionamentos na Reunião. Alguns favoráveis, como o fez Benício de maneira ostensiva e depois em particular comigo, outros nem tanto. Benício chegou a se desculpar com o escritor por sua empolgação em relação à qualidade literária do livro e o elogiou por diversas passagens em que usou figuras de linguagem inusitadas, como por exemplo, “riso rasgado” e outros que não me lembro. Por outro lado, outros participantes não se entusiasmaram tanto, revelando posteriormente gostar de textos mais abertos, mais livres, embora tenham aprovado a temática, o engajamento social do autor.


A desigualdade social é uma questão da maior importância para Rubens Figueiredo. Foi com assombro que ele descobriu que ela é central na literatura russa, fato que ele só veio descobrir quando começou a traduzir autores russos diretamente da fonte. O tema é tabu para os tradutores e críticos ocidentais, sobretudo os de língua inglesa, e estava camuflado até então nos textos que passavam por traduções indiretas. Onde tais tradutores e críticos viam questões morais e religiosas nos textos russos, sobretudo os de Tolstói, eram geralmente a desigualdade social que estava em questão nos romances. Não foi fácil subverter esse cânone desfigurado que já estava de certa forma consolidada na nossa recepção de tais textos, já líamos esperando este tipo de interpretação.


No final, quando o chaver Getúlio tomou a palavra, já passando do horário de terminar a Reunião, temi pelo pior. Mas foram temores infundados porque sua preocupação era apenas com o fim do romance e do livro em papel, queria saber a opinião do Rubens Figueiredo sobre a questão. Para o escritor, as pessoas pensam que o livro ou o romance são como o Sol e a Lua, que sempre existiram e existirão para sempre… ops aqui eu vou fazer um aparte porque nem mesmo o Sol e a Lua existiram sempre. Eles também se formaram um dia e por certo terão um fim, … e fechando o aparte, ele concluiu que o romance é uma coisa moderna, a Literatura então nem se fala. Cervantes não sabia o quê era isso quando escreveu Dom Quixote, e discorreu um pouco mais sobre a questão, mencionando autores bem mais recentes que desconheciam sua produção literária da forma como a compreendemos hoje em dia. Acho mesmo que ele chegou a duvidar se realmente existe Literatura, mas não tenho certeza de ter ouvido isso porque estava num estado de alívio por tudo ter terminado bem.


Ao ser perguntado se estava escrevendo um novo livro, Figueiredo disse que não, que “o passageiro do fim do dia” é seu último livro, que só vale a pena escrever quando se tem algo a dizer, um problema a ser trabalhado, e que enquanto não encontra um forte motivo para voltar a publicar se sente feliz e completo. Ele trouxe um pouco dessa felicidade para nós do Clube de Leitura Icaraí, que pudemos apreciar sua grande eloquência e inteligência ao falar sobre a construção da narrativa e dos personagens do seu livro, sobre desigualdade social e econômica, sobre política e filosofia. Norma ofereceu um livro de presente para o escritor no final: Clube de Leitura Icaraí - 15 anos entre livros. Vários Cliceanos assinaram o volume.

Agradeço às pessoas que colaboraram com este texto. Troquei nomes e outros detalhes identificadores para proteger a privacidade de algumas delas.





5 comentários:

  1. Muito bem, Evandro, mas eu estou aqui com "a pulga atrás da orelha". rs Quero saber as razões de tanto temor com as perguntas a respeito dessa leitura? O que não se poderia perguntar? Acho que se eu estivesse lá eu perguntaria. Acabaria com todo esse tabu. Ah, já sei... Aqui de longe acabei perdendo o bonde, ou seja, o "ônibus" do livro, "Passageiro do Fim do Dia", do escritor, Rubens Figueiredo.

    Foto belíssima! O CLIc está de parabéns! E o seu relato, maravilhoso! Ah, gostei do aparte. rs

    Abraço! Sonia Salim

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    1. Hmmm... se não pode perguntar, acho que também não se deve responder... rsrsrs. Meu relato é super parcial, compreende apenas aquilo que mais chamou minha atenção, mas provavelmente, se outra pessoa também publicar suas impressões da Reunião, questões bem diferentes certamente serão apresentadas. [ ]

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    2. Acho que é estratégia de marketing tudo isso porque eu estou muito curiosa a respeito desse livro tão especial; e o autor, pelo que você descreveu, maravilhoso. O CLIc é mesmo espetacular!!!

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  2. Essa viagem você perdeu, agora só em transporte alternativo, sem bilhete único.

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    1. Digo que não perdi. O livro, "Passageiro do Fim do Dia", do escritor, Rubens Figueiredo, está em todas as livrarias e com certeza, também no CLIc. Agora, perder o encontro é mesmo imperdoável!

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