CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

4 de abril de 2014

O amor de uma boa mulher: Alice Munro (Nobel 2013)




“No pequeno prado entre a casa e a margem do rio criavam-se vacas. Ela podia ouvi-las mastigando ruidosamente e esbarrando umas nas outras enquanto pastavam durante a noite. Pensava naqueles vultos enormes e gentis em meio às ervas olorosas, chicórias e capins floridos (…): ‘Que boa vida levam as vacas!’.

Terminam, é verdade, no matadouro. O desfecho é um desastre.

Mas o mesmo acontecia com todo mundo. O infortúnio nos pega enquanto dormimos, a dor e a desintegração estão à espera. Os horrores do corpo, todos piores do que se pode prever. Os confortos da cama e a respiração das vacas, a configuração das estrelas à noite — tudo pode virar de cabeça para baixo num instante. E lá estava ela, lá estava Enid, dedicando sua vida ao trabalho e fingindo que as coisas não eram assim. Tentando levar consolo às pessoas. Tentando ser boa. Um anjo misericordioso, afirmava sua mãe com ironia cada vez menor à medida que os anos passavam.”

O amor de uma boa mulher - Alice Munro




(O sonho de mamãe)

"Acho que só então me tornei alguém do sexo feminino. Sei que a questão foi decidida muito antes de eu nascer e que isso era óbvio para todos desde que vim ao mundo, porém creio que só no momento em que resolvi voltar, quando desisti da luta contra minha mãe (em que exigia sua rendição incondicional) e de fato preferi a sobrevivência à vitória (a morte seria uma vitória), foi que assumi minha natureza feminina." (p. 370)

"Meu pai e sua família não tinham o menor interesse por música. Na verdade, ignoravam isso. Pensavam que a intolerância ou mesmo a hostilidade que sentiam com relação a certo tipo de música (visível até mesmo no modo como pronunciavam a palavra “clássica”) se fundamentavam na força de caráter, na integridade e na determinação de não se deixarem enganar. Como se qualquer música que fosse além de uma simples canção encerrasse uma tentativa de tapeá-los, coisa de que todo mundo no fundo sabia, embora algumas pessoas—por pretensão, falta de simplicidade e honestidade—jamais o admitissem. Sobre essa artificialidade e essa tolerância covarde se erguia o mundo das orquestras sinfônicas, das óperas, do balé e dos concertos que faziam todos dormirem." (p.348)





"Vamos ao que interessa": Reunião do Clube de Leitura Icaraí debaterá "O amor de uma boa mulher" em 11 de Abril de 2014 - 19h00 - Livraria Icaraí.

(Antes da mudança)

"Hipócrita, eu disse. Maricas. Professor de filosofia.

Mas não acabou aí porque nos reconciliamos. Sem nos perdoarmos. E não tomamos nenhuma providência. Ficou tarde demais, vimos que cada um de nós tinha investido demais em ter razão. Veio a separação, foi um alívio. Sim, naquele momento tenho certeza de que foi um alívio para nós dois, e uma espécie de vitória." (p. 312)






"'Ei, já tem cabelinho em volta dela?'

Quase perguntei: 'Em volta de quê?' Não me senti assustada ou humilhada, e sim aturdida. Que um adulto com encargos sérios pudesse se interessar pela germinação rala que me dava muita coceira no meio das pernas. Pudesse se dar ao trabalho de se sentir enojado com isso, como sua voz sem dúvida indicava."  (p. 290)





(As crianças ficam - Leia o conto)

"E aí sua mãe fugiu com Orfeu" (p. 237) - Porque cada um tem seu próprio inferno, o qual a ninguém mais é dado conceber. 

* * *

(Salve o ceifador)

Há pessoas que levam a decência e o otimismo sempre come elas, que dão a impressão de limpar a atmosfera nos lugares em que estão. A elas não se devem dizer certas coisas, é muito perturbador. Apesar de sua simpatia naquele momento, Ian parecia a Eve uma dessas pessoas, e Sophie era alguém que dava graças a Deus por tê-lo encontrado. Antes, eram as pessoas idosas que demandavam esse tipo de proteção, mas parecia que cada vez mais era o caso dos jovens, e alguém como Eve tinha que tentar não revelar como estava em situação difícil: toda sua vida podia ser vista como uma forma inapropriada de se debater, um erro radical. (p. 200)


Richard Bergh - After the sitting

* * *

(A ilha de Cortes)

"Ela é uma falsa, você sabe. Bastou olhar para ela e vi que era uma falsa. E mentirosa. Não é boa da cabeça. Ficava lá sentada e dizia que estava escrevendo cartas, mas escrevia as mesmas coisas uma porção de vezes. E não eram cartas, eram as mesmas coisas várias vezes. Tem um parafuso a menos."  (p. 160)






 (Jakarta)

As relações sexuais que Kath tinha com Kent eram ardorosas e bastante enérgicas, embora ao mesmo tempo reticentes. Um não havia seduzido o outro, tinham como que escorregado na intimidade, ou no que achavam que era a intimidade, por acaso, e nisso ficaram. Se é para ter um único parceiro na vida, nada precisa se tornar especial - já é especial. Haviam se vistos nus, mas nessas horas só por acidente tinham olhado um nos olhos do outro.


"Um Prêmio Nobel indiscutível" (Alfredo Monte)

(O amor de uma boa mulher)

'"Mentiras" é a palavra que Enid escuta agora entre todas que a sra. Quinn pronunciou naquele cômodo. Mentiras. Aposto que é tudo mentira.  

Seria possível alguém inventar alguma coisa tão pormenorizada e diabólica? A resposta é sim. A mente de um enfermo, de um moribundo, podia ficar repleta de coisas sujas e organizá-las de forma muito convincente. A mente da própria Enid, quando ela dormia naquele aposento, se enchera das invenções mais nojentas, de sujeira pura. Mentiras dessa natureza podiam estar à espreita nos cantos da mente de qualquer um, penduradas como morcegos, prontas para se aproveitarem de um momento de escuridão. É impossível afirmar: "Ninguém seria capaz de inventar isso". Basta ver como os sonhos são complexos, contendo camadas e mais camadas, de tal modo que aquilo que a gente se recorda e pode exprimir em palavras constitui apenas o pouquinho que se consegue raspar do topo. 

Quando tinha quatro ou cinco anos, Enid disse à sua mãe que havia ido ao escritório do pai e o vira sentado atrás da escrivaninha com uma mulher no colo. Tudo de que ela se lembrava daquela mulher, tanto na época quanto agora, se resumia ao fato de que ela usava um chapéu com muitas flores e um véu (algo bem fora de moda mesmo então), além de que a parte de cima do vestido ou da blusa estava desabotoada e um seio nu se projetava para fora, com o bico desaparecendo na boca do seu pai. Contara isso à mãe com a absoluta certeza de que havia visto a cena, dizendo a ela: “Uma frente dela estava enfiada na boca do papai”. Não conhecia a palavra que designava seios, embora soubesse que vinham em pares.

    Sua mãe disse: “Vamos, Enid. Do que você está falando? O que é essa tal de frente?” 

   “Igual a uma casquinha de sorvete”, respondeu Enid.

    Foi desse jeito que ela viu, exatamente. Ainda podia ver desse jeito. O cone cor de biscoito com sua porção de sorvete de baunilha apertada contra o tórax da mulher, a outra ponta espetada na boca do pai.

    Sua mãe fez então algo muito inesperado. Abriu o vestido e pôs para fora um objeto esmaecido, que sacudiu com a mão. “Como isso aqui?”

    Enid disse que não. “Uma casquinha de sorvete”.

   “Então foi um sonho”, disse sua mãe. "Os sonhos, às vezes, são muito bobos. Não conte nada para seu pai. É tolo demais."

Enid não acreditou logo na sua mãe, mas passado mais ou menos um ano entendeu que tal explicação deveria ser correta porque as casquinhas de sorvete nunca assumiram aquela posição no tórax das mulheres e nunca se mostraram tão compridas. Mais tarde ainda se deu conta de que devia ter visto o chapéu em algum quadro.

Mentiras. '




"Em 'O amor de uma boa mulher', Alice Munro oferece ao leitor mais uma fornada de seus contos de fôlego, marcados pela destreza dos planos cinematográficos e pelo olhar duplo, ao mesmo tempo panorâmico e intimista. A canadense fez das pequenas cidades espalhadas pelo condado de Huron o território privilegiado de sua ficção e detecta nas franjas do meio rural aqueles indivíduos de algum modo deslocados da norma. A velhice, a doença, o transtorno mental ou a simples diferença com relação à maioria pontuam os textos. Em Munro, há uma intuição de que a condição feminina se conecta por vários caminhos com a marginalidade. Uma personagem do conto 'Jacarta' sobrevive dando aulas de ballet depois que o marido jornalista supostamente morre num país distante; a protagonista de 'Ilha de Cortes' deseja ser escritora, mas fracassa; Pauline, a jovem mãe de 'As crianças ficam', tem uma aparência peculiar que a faz ser convidada para interpretar o papel de Eurídice numa montagem teatral amadora, experiência que irá transformar a sua vida. Retrocedendo da atualidade à década de 1950, as narrativas flagram um período em que, para as mulheres, o trabalho muitas vezes servia apenas como um intervalo entre o casamento e a chegada do primeiro filho. Na verdade, tratava-se de um hiato particularmente propício ao desconforto, pois aqueles foram os anos que precederam a Revolução Sexual. A posição gauche dessas mulheres as aproxima de zonas mentais obscuras, colocando-as em xeque diante da vida social. É como se a precisão do roteiro traçado para os homens se opusessem à precariedade e à deriva dos destinos femininos." (Google books)





4 comentários:

  1. Tem novidade no CLIc! Vocês terão uma agradável surpresa com a leitura deste livro da Prêmio Nobel de 2013!

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  2. Estou curiosa!
    Alice será sempre uma surpresa?

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  3. “No pequeno prado entre a casa e a margem do rio criavam-se vacas. Ela podia ouvi-las mastigando ruidosamente e esbarrando umas nas outras enquanto pastavam durante a noite. Pensava naqueles vultos enormes e gentis em meio às ervas olorosas, chicórias e capins floridos (…): ‘Que boa vida levam as vacas!’.
    Terminam, é verdade, no matadouro. O desfecho é um desastre.
    Mas o mesmo acontecia com todo mundo. O infortúnio nos pega enquanto dormimos, a dor e a desintegração estão à espera. Os horrores do corpo, todos piores do que se pode prever. Os confortos da cama e a respiração das vacas, a configuração das estrelas à noite — tudo pode virar de cabeça para baixo num instante. E lá estava ela, lá estava Enid, dedicando sua vida ao trabalho e fingindo que as coisas não eram assim. Tentando levar consolo às pessoas. Tentando ser boa. Um anjo misericordioso, afirmava sua mãe com ironia cada vez menor à medida que os anos passavam.”
    O amor de uma boa mulher - Alice Munro

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  4. Por que uma boa mulher? Poderia ser o título irônico?

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