CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

2 de outubro de 2012

O Rochedo de Tânios: Amin Maalouf


Caro Tânios,

Mais uma vez, recebemos de você um comentário excelente sobre a leitura do mês. Agora, sobre o extraordinário livro do árabe Maalouf. 

Parabéns!

Na primeira Passagem, A Tentação de Lâmia, da qual decorrem, certamente, todas as demais passagens de Tânios, há,  na página 36, menção às pedras de âmbar. Passatempo do sheik. Dizia, ele: 

"...o  marulho dos grãos que se entrechocam proporciona serenidade, como o escoamento da água entre as pedras e a crepitação da lenha no fogo".  

Realmente, os povos árabes usavam essas pedras como amuleto, para dar sorte e afastar maus espíritos, proporcionando alegria e energias positivas. 

Tenho um pequenino cordão com pedras de âmbar, que meu marido ganhou de um grande amigo árabe, dizendo que as pedras iriam  trazer-lhe serenidade e proteção. Desde que ele faleceu há, exatamente trinta anos, trago o cordão comigo. Ele esteve em Angra, participou de nosso Devaneio e está, sempre ao meu lado. Posso esquecer até do celular mas, de minhas pedras, NUNCA! Levo-o, amanhã, para mostrá-lo a vocês.

Abraços.
Elenir



* * *

Caros amigos,

 

Esta semana inaugurei um novo método de leitura, o "Método Usain Bolt". O Método é eficiente, mas deve ser aplicado apenas à modalidade de leitura em ônibus. Utilizando-me deste Método, li“O rochedo” em apenas três dias, três viagens de ônibus (e acreditem no que digo, é viagem mesmo!). Há inconvenientes, é bem verdade. Se houver uma frase interessante, por exemplo, e você quiser marcá-la com um marca texto, deve tomar muito cuidado para não coincidir o momento da marcação com uma curva qualquer da estrada, caso contrário o que sairá pode ser uma parábola ou uma linha diagonal formando na página do livro dois triângulos retângulos, o que já não seria mais de interesse da literatura, mas da matemática.
Cristiana, desenvolvi o método para atender à convocação extraordinária feita por você aos clic-leitores-atrasados-na-leitura. Queria terminar a tempo de escrever alguma coisa ao Clube. Mas não se preocupe, o método não causa prejuízo à qualidade da leitura, eu acho...
O livro
Gostei do livro. Bem construído, narrativa muito bem dosada, com fluidez e momentos de luz poética, conferindo ao texto certa suavidade. Numa trama com doses generosas de tragédia é uma proeza. Mas isso falo apenas por mim, do meu sentimento em relação à prosa de Maalouf.
Há dois méritos no livro, em minha opinião, que afastam o livro da possibilidade de cair num regionalismo limitante. O primeiro é a presença de questões que são universais: amor, ódio, vingança, traição, reconciliação, intolerância, poder (político e religioso), exploração (política e religiosa), liberdade, tirania etc. O outro diz respeito ao exótico. O livro retrata uma região e uma cultura que poderiam facilmente, para nós do ocidente, cair nessa armadilha, mas o livro passa longe disso. Enfim, é um livro que exala o humano, com muitas de suas contradições, e que nos possibilita uma leitura mais aberta, mais universal.


Senti também que a força do livro se reflete no drama existencial de Tânios, que é de certo modo o drama de um povo, historicamente localizado numa região em constantes conflitos, de gente apegada ao solo, mas também em eterna partida. Acho que isto está um pouco implícito no fim do livro, na linda passagem reproduzida abaixo:

Sobre os passos invisíveis de Tânios, quantos homens partiram da aldeia depois! Pelas mesmas razões? Antes pela mesma investigação, e sob o mesmo ímpeto. Minha Montanha é assim. Apego ao solo e aspiração à partida. Lugar de refúgio, lugar de passagem. Terra do leite e do mel e do sangue. Nem paraíso nem inferno. Purgatório”…
“Atrás de meu ombro, a montanha próxima. Aos meus pés, o vale de onde subiriam ao cair do dia os uivos familiares dos chacais. E lá, ao longe, eu via o mar, minha estreita parcela de mar, estreita e longa rumo ao horizonte como uma estrada”.

Enfim, o livro é uma estrada aberta, há muitas possibilidades de debates, inclusive o importante e rico debate histórico.

É só isso, por enquanto...


Atenciosamente,

Antonio R

* * *

Joana e o autor
Voltemo-nos agora a Tânios.....

Logo no início,  pag.25 um trecho me levou aos tempos de criança quando ouvia meu pai falar do "fio do bigode"

   ...Os bigodes, para ele, eram a honra, eram o poder, e  quando fazia uma promessa importante, arrancava-lhes um pêlo que confiava muito solenementente à pessoa referida, a qual o recolhiam um pano limpo, para lho devolver no dia em que a promessa fosse cumprida.

 pag 116      ......A sabedoria é isso.Vais ajudar-me em meu trabalho, te ensinarei tudo. És um homem agora. É tempo de começares a ganhar teu pão.
                        Tânios levantou-se como um morto.

Exceto nas páginas da Bíblia (quando Lázaro revive pelo milagre de Cristo) jamais ouví falar de qualquer personagem levantar-se como um morto. Como será que um morto se levanta? (isto é, se fato fato ele estiver morto).

 pag  183     .... Aquilo que nessa ligação podia parecer sórdido - a moeda - deve ter lhe parecido,ao contrário,tranquilizador, como demonstra esta frase da Sabedoria do muladeiro:

                    "Tânios me disse: todas as volúpias se pagam, não desprezes aquelas que dizem seu preço."

Muitos outros trechos nos levam à reflexão e ao encantamento.

...

abraços e até 6ª

Joana Lapa
* * *



LÂMIA

Pode o desejo trair o coração?

O peito de montanha do meu povo
não sabe amolecer à voz das espadas

mas derrete à luz de simples afagos
como o reconhecer de um nome
ou um elogio de sheik
à beleza de uma mulher.

Inda que se critique a volubilidade
a intemperança e o oportunismo da realeza
é através de seu interesse
que me sinto fêmea e bela
e desejo o que não devia
o que nem queria
a tentação que tentei evitar
fosse meu marido
mais dono de mim e de si.

Rita Magnago

Última atualização do blog: 27/09/2012

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2 comentários:

  1. Joana, linda foto e não poderia ser mais oportuna. Parabéns também pelos trechos selecionados. Você sempre muito astuta e sensível.

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  2. Gente, como foi a reunião? Eu fiquei numa reunião de conselho até as 5, estava tao cansada que me arrastei até em casa nem sei como. parecia bêbada que não lembra como chegou em casa. li o e-mail do antonio em resposta a elenir, morri de rir, ele ficou com medo de que levassem o rochedo ou a pedra do indio como bastão (poxa eu teria perdido o maior evento dos tempos). Afinal de contas se Amin não vem a montanha, pelo menos o rochedo de tanios viria. Da proxima vez providenciaremos um guindaste. pelos comentários sei que foi um livro maravilhoso. lerei no futuro com certeza. abs a todos. por favor noticiem os bastidores desse encontro memorável e solidificante como uma rocha.

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