CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

16 de setembro de 2012

Eu Menina Toda Prosa... e Alguma Poesia: Ilnéa País de Miranda


Araruama

‎"Havia só a menina

De corpo livre de tudo,
De alma livre de mágoa
Marcando os pés pequeninos
Em sua areia salgada.
 Molhando o azul do vestido
No respingo verde da água ."
Ilnea Pais de Miranda, escritora de nossa leitura atual.

Parabéns à sensibilidade da menina que sobreviveu e circula entre nós, orgulho do CLIc.
Elô

* * *


A Autora do mês e a Haikaista do CLIc

A Autora do mês e a Sacerdotisa do CLIc

Opinião dos Leitores do CLIc

* * *

Para Ilnea,

Eu menina, toda prosa
já falava de poesia
mas pensa? nem sabia
como uma flor, uma rosa

ia levando a vida apenas
aprendendo a ser sozinha
me alfabetizava euzinha
sem escola que valesse à pena

a professora, mamma mia
nem sempre deu muito carinho
mas ajudou no meu caminho

hoje, sigo ainda menina,
trovando minha vida inteira
salve a poesia, minha companheira.


Rita Magnago
 Lançamento do livro TRAVESSIA DO VERSO em 25/09/2012, terça-feira
Teatro Municipal de Niterói, sala Carlos Couto, às 20h
(em frente ao Plaza Shopping)



Rita Magnago, carioca residente em Maricá, é frequentadora assídua do Clube de Leitura Icaraí (CLIc), que se reúne na Livraria da EdUFF mensalmente. Segundo Carlos Rosa, é uma “poetisa de versos claros nos quais percebemos reflexões maduras, plenas de poesia”. A autora é jornalista e, além de poesia, publica contos e crônicas. Travessia do Verso traz poemas que falam das nossas travessias pessoais.
 
* * *

A Autora do mês e a fundadora do CLIc
Ilnéa,

Obrigada por me "trazer" menina.

Obrigada por minhas lágrimas de recordações...
 
Ler você, em alguns momentos, foi como reviver um pouquinho de minha infância.

Também tive um tio muito querido, considerado por muitos meio "diferente" mas que nutria por mim um carinho puro e que me fez, muitas vezes, me sentir "especial". 
 
Um dia, para desespero de minha avó (eles moravam num sítio) ele me levou para um passeio "logo alí" de moto, que durou umas 3 horas! Passamos na estrada no meio de uma boiada! Pior, descobri que quem levava a boiada era um amigo da escola! Isso tudo para tomar caldo de cana dentro de uma lata amassada numa USINA em Tanguá. No caminho ele parava numas espeluncas no meio da estrada para comermos bolos... Eu, de cara suja de poeira de barro, ainda tinha que escutar que havia sido "achada" num latão ou coisa parecida!
 
Se fiquei triste? Que nada! Tudo parecia irreal, uma aventura, um sonho, que terminou quando voltamos ao cair da tarde e minha avó estava aflita no portão!

Tantas aprontei Ilnéa, fui bem arteira, moleca mesmo.

Vera Schubnell
* * *





Gosto de olhar comprido, longo, longe. Gosto de ver o horizonte para além do mar e de olhar desde o topo da montanha, gosto de olhar para além do fundo do céu, da liberdade de sonhar para além da imaginação, para além do já sabido, do conhecido. Gosto de conhecer, mais que de reconhecer. Para além da lenda. Assim sou eu: para além da história, ou “para lá de antes que seja história.




Troco alhos por bugalhos
naquilo que o povo assunta
troco as cartas e os baralhos
e continuo "bestunta".
Escrever o que não digo,
vezes há que me proponho,
mas estando a sós comigo...
adormeço... enquanto sonho.
 Bem pequena, eu menina,
na menina que ainda sou,
cada vez mais pequenina
enquanto o tempo... passou.
 
 
Detrás de tudo, a quietude,
dia, noite... madrugada
no silêncio, um alaúde...
escuto... não ouço nada. 

Sol de Primavera

Um comentário:

  1. No último e-mail que recebi do CLIc, Dília sugere um segundo encontro com Ilnéa. Pensei, por que não por aqui? De todo modo, eis minha chance de dizer o que não pude falar na reunião porque não pude comparecer no dia combinado. É claro que não sentirei o gosto da torta ou a presença de todos naquele instante de convivio. Mas, deixo registrado aqui um fragmento da poesia "Cheiros" que havia escolhido para ler:

    "Dos cheiros de minha infância
    Lembro tão intesnamente
    Que parece senti-los sempre
    Inda que neles não pense
    Pelo menos com a clareza
    de quem pensa por querer.

    Cheiro de terra molhada
    Varrida pelo Vô Chico
    Bem cedo, pela manhã
    Com a vassoura de galhos
    Que ele mesmo cortava
    Das pitangueiras dda casas.

    Cheiro de leite fervido
    Do café feito na hora
    Da manteiga derretendo
    Se espalhando em pão quentinho
    Que ao menor toque estalava
    E desmanchava na boca.

    Mas o cheiro que encantava
    Por volta do meio dia
    Não era cheiro de almoço
    Como alguém pode pensar
    Mas o cheiro das cocadas
    Que a Irene preparava."

    Todos os meus comentários são intimistas, assim como o livro de Ilnéa, se assim não o for, meus, com certeza, não serão. Essa poesia Ilnéa, me remeteu a algumas lembranças de minha infância. São poucas que tenho. Sabe-se lá o porquê, mas tenho a intuição de que a ausência delas me são benéficas. Talvez um dispositivo de sobrevivência. Bem, não importa o motivo. Mas essa poesia, ativou em meu incosciente algo que meu consciente captou como um resquício de algo bom.

    Do mais longínquo recôndito de minha memória, senti o cheiro da bosta das vacas (acho que dos bois também. Mas não dá pra discernir de quem é o que). Digo vacas, porque elas estavam mais próximas de onde a fila se formava para que as crianças da fazenda fossem tomar leite logo pela manhã. Todas com suas canecas na mão com uma pitada de açucar e de sal no fundo de cada uma delas. Que cheiro bom! A caneca era cheia e quando levava-mos à boca, a espuma encostava em nossos narizes e o cheiro impregnava até o cérebro. O gosto doce e salgado ficava grudado nas papilas por longo tempo.

    Uma outra lembrança que me veio a mente foi a do cheiro da chuva, até hoje sinto, mesmo no asfalto. É inebriante. De algum modo esse cheiro sobe até a superfície e eu consigo senti-lo ou imagino que sinto.

    Por último, me veio a lembrança o meu desejo de sentir o tépido calor da terra, num dia em que caminhava e cansada, a terra me convida a deitar-me nela e aproveitar seu calor e aconchego. Deitei-me, e foi uma das coisa mais prazerosas de que frui em minha tenra idade (uns 10 anos, acho eu, se minha memória não me enganar e, ela sempre me engana, a danada)

    Episódio estranho para muitos, creio eu. contudo, até hoje me lembro de como foi gostoso sentir a terra me tocar como se tivesse me acariciando, me ninando, deu-me uma preguiça tão gostosa e fiquei por longos momentos, quieta, olhando o céu, sentindo o silêncio, completamente em paz comigo e com o universo.

    Não sei se peço a meu filho para me enterrar assim como São Francisco de Assis pediu que fosse enterrado, nu, do mesmo modo em que veio à Terra. Caixões são feios e claustrofóbicos.

    Bem, lamento pelo tom final desse comentário longo. Parece que teve a duração de uma vida. Não estou triste ou melancólica, apenas a pensar nas únicas certezas que temos na vida: nascer (crescer é mais incerto), fisicamente para morrer sabe-se lá em que estado. É claro que a premissa é de que para morrer é preciso ter sido concebida ou nascido.

    Bem, é isso meus caros colegas de viagens literárias.

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